Carnaval, para mim, sempre foi sinônimo de fantasia (roupa) e fantasias (incorporar o/a personagem). Sempre fui dada a fantasias e minha mãe fazia-me fantasias nos carnavais – de boneca, de odalisca, de cigana, de havaiana etc. Curiosamente, nunca vesti-me de baiana no Carnaval, mesmo Carmem Miranda sendo o modelo da época. Confete e serpentina também enriqueciam este universo. E o LANÇA PERFUME então? Era vendido em barraquinhas que os comercializavam juntamente com as máscaras (óculos) de plástico transparente para proteger os olhos, já que os olhos eram sempre os mais visados pelos lançadores. Havia os tubos pequenos, em vidro, mais baratos e os metálicos, muito cobiçados por mim, mas raramente comprados por meu pai devido às limitações financeiras.<br>De posse deste Kit lá íamos nós para a Avenida São João, passear, cantar, brincar, atirar confete, serpentinas e regradamente o lança perfume, para que um vidro pequeno durasse os três dias de folia. Lá pelas tantas da noite, após as 20 horas, iniciava-se o desfile de Carros Alegóricos, pequenos, nada monumentais como os de hoje, feitos em fundos de quintais por foliões bem humorados e alegres, muitas vezes por famílias inteiras, que nele desfilavam.. Havia carros com críticas à política e aos políticos, sempre muito aplaudidos pelo público, havia navios-piratas, carros das flores etc. Íamos também apreciar o Corso, na Avenida 9 de Julho, próximo ao Túnel, que eram carros de passeio cheios de jovens sentadas/os nos paralamas, fantasiados ou não, que cantavam, desciam dos carros e sambavam no asfalto sob o comando de poucos instrumentos de percussão e suas próprias vozes. Muito confete, muita serpentina, muito lança-perfume e muita paquera inocente, comandada pelo kit de carnaval (confete, serpentina e lança-perfume).<br>O Corso era mais ou menos elitizado porque não era todo mundo que podia ter um carro. A grande maioria da população mais apreciava. <br>Houve um ano em que meu tio Felix, irmão rico de meu pai, dono de um Buick preto (não me lembro se era assim que se escrevia), resolveu levar a sobrinhada jovem para fazer o Corso. Glória suprema! E por ter sido um grande acontecimento nossos pais fizeram um investimento – rombo no orçamento- e nos compraram uma Rodo grande (o metalizado Rodo, porque era fabricado pela Rhodia do Brasil). Os pais foram para a Avenida de ônibus, tomar posição para nos ver desfilando no Corso.<br>Obrigada Tio Felix. Foi um Carnaval inesquecível!!<br>Hoje os carros não têm paralamas que acomodem pessoas sentadas, o que inviabilizaria o Corso, né? Como a criatividade sempre é a mãe das soluções…<br>Dois ou três anos depois disso o Corso acabou porque começaram a entrar caminhões no desfiles cheios de gente, muitas vezes bêbada, que jogava farinha e água nos participantes e até urina. Como sempre acontece, a falta de educação e de compostura de alguns prejudicam muitos e terminam com brincadeiras e divertimentos sadios.<br>Como se pode observar, o Centro de São Paulo era realmente um espaço público, social, com suas praças (Don José Gaspar, da República, do Arouche etc.) bem cuidadas, onde se podia usufruir de momentos de descanso, de lazer e, claro, de namoro. Suas Avenidas – São João, Ipiranga, São Luiz, Viadutos – com sua bela arquitetura e belos monumentos e estátuas (assim chamávamos as esculturas), suas casas de lanche – tanto as mais refinadas como a Confeitaria Vienense, na Rua Barão de Itapetininga, o Bar Bhrama, outras mais populares, mas igualmente gostosas, como a Leiteria Americana, a Salada Paulista e algumas popualares e pequenas na Praça da Sé, que faziam um delicioso sanduíche de pernil assado com molho acebolado e tomate, colocado em um pãozinho francês quentinho. <br>Os bailes nos clubes eram familiares, com pais acompanhando suas filhas. Lá a paquera era sempre na base do lança perfume. Via-se, vez ou outra, rapazes colocando lança perfume na cerveja ou em um lenço, para cheirar, mas que logo eram identificados ou dedurados aos seguranças e retirados do salão. Quando a coisa foi ficando mais incontrolável, e aí começávamos a adentrar no mundo das drogas, Jânio Quadros proibiu o Lança Perfume.<br>E assim, com os excessos em todos os níveis aumentando, foi acabando o Carnaval gostoso de São Paulo, as famílias se recolhendo e os poucos foliões virando expectador de escolas de samba que investem rios de dinheiro montando um carnaval de sambódromo operístico, pago e para pouca gente. <br>Ficamos por aqui, com nosso confete, pedacinho colorido de saudade. Pelo menos ele, ainda alegra os carnavais!