Over the Rainbow

Diz a canção, diz a lenda que no final do arco íris há um pote de ouro.
O duro era acordar às 5 e meia da manhã, tomar um banho de pingos – ou de gato – no chuveiro da casa da vó, colocar a roupa de sair e quase dormindo acompanhar os pais.
O duro era entrar no ônibus cheio, do Brás até o Largo Paissandu, daí andar até a rua São Luiz, pegar o 54 – Jardim Paulistano, subir e descer a Augusta até chegar na rua Groenlândia. Descer e dar bom dia ao casal de húngaros que tinham vendido a mercearia para o meu pai.
O duro era saber que ia ficar o dia inteiro na mercearia que o pai tinha comprado e que eu, do alto dos meus 10 anos de idade tinha que atender telefone e fazer entregas e eu nem andar de bicicleta sabia, ainda.
Mas as coisas todas se encaixaram. Aprendi a andar de bicicleta, a atender telefones, a fazer troco. Só não aprendi a bater chantilly.
Engraçado que descíamos na badalada rua Gabriel Monteiro da Silva, que naquela época se chamada D. Hipólita.
Aliás, muitas ruas tiveram seus nomes trocados. A Salvador Frederico virou Almirante Mascarenhas, parte da Juquiá virou Des. Vicente Penteado; a Rua Quilombo virou Ibsen da Costa Manso, a Nevada virou Taufic Camasmie, entre outras.
Tínhamos à nossa volta uma mescla de culturas. Na rua João Moura tínhamos a família israelita, com suas salas austeras e escuras, cheias de quadros, enfeites e sobriedade. Nesta casa eu aprendi a ver laços de família Na Av Rebouças tínhamos o casal de alemães que só tomavam Pilsen Extra e que um dia a D. Lili, pois era assim que a conhecia me mostrou um retrato de um jovem, seu filho morto na guerra.
Nesta casa eu aprendi como se convive com a dor. E como superá-la..
Na própria Groenlândia tínhamos o incansável industrial e seu inconseqüente irmão. Ambos gerados dos mesmos pais, ricos e um inteiramente diferente do outro. Aí aprendi que “cada um é cada um”
Uma vez, o irmão inconseqüente chegou em casa de manhã e bateu com o carro na coluna do portão, destruindo-a. As empregadas disseram depois que ele chegou meio embriagado. Aprendi também que se ele fosse pobre teria chegado bêbado e não meio embriagado.
Mas eu gostava mesmo de passear na rua Guadalupe, com suas calçadas largas, ajardinadas e que para mim eram as mais bonitas. Ou então ir jogar bola no colégio Nossa Senhora do Brasil, na av Brasil, que tinha uma quadra pequena, mas acessível a nós míseros mortais em função de que um amigo estudava lá e tinha alguma facilidade para entrar e uma certa rapidez para sair quando éramos descobertos. Vez ou outra eu ia à igreja N.S do Brasil, com seu estilo único e freqüentadores ímpares.
Saía da Groenlândia, virava na Venezuela, na Peru, na Panamá, na Brasil e me via contrito e austero, rezando.
Mas eu gostava (e gosto) mesmo era da Igreja de S. José na rua Dinamarca.
Muitas vezes ia ao Sirva-se, talvez o primeiro ou segundo supermercado de São Paulo. Com certeza o primeiro que eu tinha visto. Lá, volta e meia nos encontrávamos com artistas de televisão. Para mim era um “Alô Doçura” quando encontrava aquela moça tão bonita quanto artista.
Descendo ainda a Gabriel, tínhamos o Colégio Madre Alix e a Escola Nazaré.
Os dois administrados por freiras sendo o primeiro freqüentado pelas meninas mais ricas e o segundo pelas menos. Bem menos.
No Madre Alix os motoristas que vinham buscar as meninas entravam no colégio com o carro por um portão e saíam por outro. Por isso não havia carros em fila dupla. No colégio Nazaré, nem havia carros. Só mães esperando as filhas saírem. Muitas delas ainda com o uniforme de cozinheira, babás, arrumadeiras e etc.
Quase ao lado do Madre Alex ficava a Brunela, que fazia um dos doces mais badalados da cidade. Para confirmarmos que éramos abençoados por Deus, o confeiteiro mor era nosso amigo e numa dessas, sobrava muita coisa. Sempre que ia buscar minha irmã na Escola Nazaré, dava uma passadinha pra ver o Sr. Salvatore na Brunela. Depois ele foi transferido para outra loja em Moema e perdi meus bombons e doces, quase diários.
Na rua Atlântica tínhamos os homens da televisão. Moravam nela a família Machado de Carvalho, da TV Record e a família do Sr. Enéas Machado de Assis que vivia na TV Tupi.
Na Rua Polônia, porém, tínhamos o mais importante deles – Assis Chateaubriand – e sua famosa Casa Amarela. Na frente da casa havia um enorme viveiro. Toda a frente, além do jardim havia um viveiro onde dezenas de pássaros viviam em harmonia com a natureza. Não diria que eles estavam confinados, mas sim vivendo livres e devidamente protegidos.
Se durante a semana, crianças e respectivas babás se encantavam, era nos finais de semana que a calçada transbordava de casais e pessoas até de outros bairros que se maravilhavam com a harmonia do canto e o multifacetado colorido que as aves apresentavam.
Descendo um pouco mais a R. Polônia, terminava o arco íris e aparecia o meu pote de ouro.
Nada mais, nada menos que a igreja de São José, na rua Dinamarca, simples e ao mesmo tempo solene, onde eu e minha namorada, numa quieta e tranqüila tarde / noite, oficializamos sob a lei dos homens, aos olhos dos parentes e amigos de uma forma mais próxima e a todos de uma maneira geral, uma eterna união feita há muito séculos antes num plano maior que este, neste interminável e imorredouro sonho.