Amigos imigrantes

Minas me parece que foi o estado que mais gente mandou para São Paulo. Um vizinho que mais tarde se tornaria meu compadre era um dos muitos que tive vindo de Guaxupé. Seu nome Manoel Maiotti. Foi morar na Vila Olímpia, Rua Ponta Delgada. Sua casa era na beira do córrego da traição, pelo mapa ia até a metade do córrego. Novo no bairro, disse para todo mundo que era pedreiro. E era mesmo. E que pedreiro! Foi ele inclusive que reformou minha casa. Mas quando não tinha serviço de pedreiro ele vendia amendoim, balas e fazia algodão doce. No seu carrinho com rodas de bicicleta aro 28, tinha numa catraca também de bicicleta que girava um recipiente roliço onde ele colocava o açúcar cristal dentro que, pedalando, se transformava em algodão. Era a alegria da criançada. Quando seu Manoel chegava era aquela gritaria. Mãe chegou o “home” do algodão doce. Pronto, um dinheirinho era tirado do porta-níquel. Uma fila enorme se formava de crianças e até adultos com nenês no colo. Ele atenciosamente ia pedalando e girando aquele cilindro oco por aonde ia colocando pouco a pouco o açúcar cristal.
Um dia, na Rua Texas, depois de servir a todos, um rapaz moreno, bonito segundo ele, ficou parado olhando e não dizia nada.
– Quer algodão? Perguntou seu Manoel.
O rapaz com um sorriso ameno disse:
– Algodão? Pau no meu botão!
Não sei como ele não agrediu o rapaz. Pois mineiro com aquela fleuma de conservador, e das tradições de respeito à família, jamais gostou de ouvir coisas assim. Principalmente nos anos 1950, mesmo já no fim. Seu Manoel era uma boa pessoa, mas tinha uma coisa que o importunava muito. O ciúmes que tinha da sua mulher. Era só alguém olhar para ela, mesmo que sem querer e pronto. Era briga na certa. Um dia houve uma tremenda confusão, entre seu Antonio e o Yanque, dois valentões, que não podiam se ver. Inclusive Yanque deu um tiro que passou raspando seu Antonio. Muita gente se aglomerou na rua. Yanque e seu Antonio eram os protagonistas em que todos estavam de olho. Mas, de repente, outra briga no meio daquela confusão toda. Era seu Manoel enchendo a cara do Bigode de socos e dando ponta pés.
– O que é isso seu Manoel! Lá foi meu pai, para apartar.
– É esse vagabundo que está olhando para minha mulher.
Bigode, sem saber de nada, inclusive nem sabia onde ele morava, disse a meu pai:
– Esse cara é louco, nem sei quem é a mulher dele.
Outro cara que sofria com o ciúmes do seu Manoel era Alcebíades motorista de ônibus da CMTC. O único dia de folga que tinha aquele trabalhador do volante, era de domingo. Debruçado no muro de sua casa que era de frente com a de seu Manoel, ele tinha que ouvir.
– Que é? Está esperando minha mulher sair, para vê-la?
Era Corinthiano. Quando seu time perdia, ele tomava umas pingas. Jamais ficou de fogo. Mas conhecimento de pinga era com ele mesmo. Perto de sua casa tinha um bar inclusive o dono era seu xará. Todo dia ele deitava uma caninha. Tatuzinho era sua marca preferida. Entrava no bar cantando: Ai Tatu. Tatuzinho… Me dá a garrafa que tomo sozinho. Mas na verdade tomava uma ou duas doses. Deitava o copo, e dava um gole para o Santo. Um dia ele estranhou que a Tatuzinho estava Pirateada.
– Seu Manoel: o senhor batizou essa pinga?
– Eu? Deus me livre de fazer isso para o senhor. Compadre!
– Seu Manoel, posso não entender de nada. Mas de pinga eu entendo tudo.
Abre uma garrafa agora para mim. Aberta outra ele mostrou a diferença do que estava tomando com a dose nova. Não tinha como se enganar.

Depois daquele dia, seu Manoel, dono do Bar, teve que ter duas garrafas de pinga tatuzinho na prateleira. Uma original para seu Xará, e outra batizada para os trouxas.
Muita saudade do seu Manoel. Ele faleceu em 1979, no hospital São Paulo de câncer no estomago.