Bem, a memória é uma coisa engraçada, ontem sentei a frente do meu laptop, o Word aberto e busquei um fato qualquer para iniciar um relato e ter, então, novo texto para publicar neste site. E nada, nenhuma coisa importante veio povoar meus pensamentos.
Hoje, sem nada preparado, como se viesse do nada, um paladar conhecido veio atiçar minha memória gustativa.
Humm… era o gosto acre do molho de tomate que cobria uma deliciosa, lasanha degustada muitas e muitas vezes no passado e ainda hoje, de quando em vez.
Tempos atrás, os componentes dos Duques de Piu-Piu, a maioria descendente de italianos, eram amigos da mesa farta e pródiga. Então, aos sábados antes de colocarmos nossos pesinhos nas pistas de dança, costumávamos calçar nossos esqueletos (termo usado na época para definir o verbo comer), normalmente íamos a alguma pizzaria, entre elas O Morais, Cantina Esperanza, ou outra qualquer boa cantina do Bixiga.
Porém, quando o Paschoal (agregado muito querido dos Duques) que trabalhava como mecânico da Equipe Tubularte vinha motorizado para casa, o programa era mais do que certo, cantina Veneto na estrada de M’Boi Mirim. Essa Cantina, diga-se de passagem, era de propriedade de duas famílias italianas que tinha como especialidade a Lasanha montada e gratinada em cuias de barro e forno à lenha.
Essas noites eram programadas com alguns dias de antecedência, e no sábado, por volta das 17:00 horas, nos encontrávamos, todos, no Bar e Bilhar Rex, devidamente vestidos, com nossos ternos de Tropical, sapatos bico fino, camisas de punho duplo e gravatas com belos nós e no carro do Paschoal, ou melhor, da Equipe Tubularte, nos dirigíamos para a referida Cantina.
Lá chegávamos por volta das 18:00 horas, nos colocávamos à vontade, ou seja, tirávamos paletós e gravatas, arregaçávamos as mangas das camisas e, então, cada um com seu copo de “limonada” íamos para os fundos da Cantina onde existia a quadra de bocha onde jogávamos e bebíamos até as 20:00.
Lembro-me que no verão, admirar o por do sol lá da Cantina era qualquer coisa de sensacional.
Depois de jogar e beber à vontade, o jantar era servido. A pedida era sempre a mesma, Lasanha, Frango com Molho de Salsa (simplesmente fabuloso) e Polenta Frita. Bebidas? No verão cerveja (muitas) no inverno vinho.
O jantar era cheio de brincadeiras e jogos, mas, por volta das 22:00 horas, os Duques de Piu-Piu se recompunham, lavavam os rostos, penteavam os cabelos (na época 3 andares) limpavam os sapatos, colocavam as gravatas e os paletós e, então, a noite era nossa, nos dirigíamos, normalmente, para O Recreio das Carpas (o nome certo tinha que ser Recreio dos Duques), mas, às vezes, parávamos na metade do caminho e entravamos no Cassino Vila Sofia (Cassino só no nome, salão de baile, uma das mais tradicionais gafieiras de Sampa). Dançávamos ate as 4:00 horas da madrugada e voltávamos para casa alegres e descontraídos para enfrentar o domingo.
A Cantina Veneto foi desde os tempos de solteiro minha Cantina Preferida, lá freqüentei com minha família antes e depois de casado, e ainda hoje, sempre que uma oportunidade aparece, é para lá que me dirijo. Os proprietários ainda são os mesmos e eu me sinto como parte integrante do lugar.