O filme passa. O cenário ao fundo parece ser sempre o mesmo. Ledo engano: a cada segundo ninguém, nada é o que foi ainda há pouco, alguém já disse.
O filme passa. Eu aguço a minha percepção (não a sensibilidade, que um homem, um macho, não deve nem de brincadeira admitir que é sensível, nem chorar, mesmo que seja do tipo que sente em suas entranhas, diante de qualquer efêmera beleza, o verso e o verbo se elaborarem) no ouro líquido do chope.
O filme passa. Em preto e branco, sépia, em cores psicodélicas. Passam personagens, tramas, e não são sempre as mesmas. Caminho livre. Direito de ir e vir, de chegar e partir, de viver e morrer. A vida escorre suja pela sarjeta, vaza em profusão pelos poros, esvai-se em lágrimas e saliva. Trilha sonora de acalantos, gemidos de prazer, choro compulsivo. E acordes soltos, espalhados por aí, pelos becos, assustados como pombos ao ribombar dos trovões.
Tem um cara que passa toda tarde em frente ao bar com o seu guarda-chuva. Mesmo que não chova ele o mantém aberto, firme, a proteger-lhe a cabeça. E talvez nem seja este o propósito.
Rimos ao vê-lo passar. Divertimo-nos. Alguns de nós o taxamos de ridículo, de louco, de insano. Que por algum motivo – desilusão amorosa, abalo financeiro – deve ter perdido a razão. No nosso egoísmo estamos felizes de não sermos nós que tivemos tais perdas. Não imaginamos jamais que possa ser o contrário. Que ele esteja a ganhar agindo assim.
O filme passa com o rapaz do guarda-chuva dentro dele. Em primeiro plano, indiferente às nossas conjecturas, ele Sobe a Galvão Bueno, desce a ladeira da São Joaquim, cruza o viaduto da Rua da Glória, surge de repente na escadaria da vilinha em "L" que começa na Taguá e termina na Fagundes (ou será o contrário?).
Quem sabe do roteiro dentro daquela cabeça protegida pelo velho guarda-chuva cor de fuligem que um dia foi preto como um morcego? Quem garante que não se guie apenas pelas pistas da intuição?
Nos dias de chuva o ignoramos. É só mais um, dizemos, se dizemos muito. Talvez enxerguemos em seu semblante um lapso de lucidez, mas não podemos adivinhar se dentro dele há calmaria ou tempestade.
Continuamos bebendo. O filme passa. A sessão que demorará até que se anuncie a saideira e cerrem-se as portas do bar.
O rapaz do guarda-chuva passa e já não é mais o mesmo. Embora tenhamos certeza plena que o seja.
Cremos também que não chegou ainda a nossa hora, que sobreviveremos e que amanhã teremos mais. Nunca nos importamos em olhar para o nosso próprio umbigo colado ao balcão do bar.
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