Um empresário bem-sucedido

O castelo era parecido com aquele dos sonhos na região do Abruzzo, na comuna da Rocca no grande Monte Sasso na Itália. No entanto, lá no país de origem, ele não era simplesmente nada. Aqui no Brasil era o dono de um próspero castelo de tesouros. O Chiquinho Matarazzo havia edificado uma grande indústria de saboaria e que dera origem a toda à tradição dos Matarazzo. Começou aqui, no Brasil, com a fabricação da banha de porco. Lembro-me que a minha saudosa mãe também usava dessa banha para uso geral na culinária do dia a dia. Ela era vendida em pacote de um quilo. O Matarazzo inventou depois uma forma de colocar essa banha de porco em latas. Fazia também velas de sebo.

As Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo começaram aqui no Brasil, dessa forma. Depois da grande experiência, ele cria uma indústria de latas e uma metalúrgica no largo da Vila Pompéia. Vai criando uma série de subprodutos sempre ligados a banha de porco e ao sebo. Depois, o Matarazzo partiu para outras fabricações, como uma tecelagem e a indústria de biscoitos e macarrão, em uma série de outros artigos de consumo quase que obrigatório. A fábrica da Água Branca foi, sem dúvida, o polo industrial que gerou, na época, muitos empregos e deu trabalho a inúmeras pessoas. E assim, a Vila Pompéia, que ficava ao longo dessa grande fábrica no bairro da Água Branca, se desenvolveu e prosperou.

Muitos funcionários dessa fábrica construíram suas moradias ao redor do grande complexo industrial, devido ao fácil acesso ao local de trabalho. O pai do Victor Siaulys, recém chegado ao Brasil, vindo do extremo norte no país báltico, na Letônia, trazia consigo um sonho, como tantos outros imigrantes recém chegados ao Brasil: era de construir sua família aqui no Brasil. De início, arrumou emprego nas Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo na Água Branca. O local de trabalho ficava a umas dez quadras de sua casa. Lembro-me que muitas vezes fui acompanhar o filho Victor levar a marmita preparada pela mãe à Dona Julia, no trabalho do pai. A marmita era transportada em um suporte de alumínio, onde havia quatro compartimentos separados por unidades. A marmita era lacrada hermeticamente para não entrar o ar e amarrada na parte superior, com um pano de prato com um discreto nozinho no topo da tampa. Uma vez lá chegando, ele entregava a marmita para o pai na porta da fábrica porque não podíamos entrar lá dentro.

Naquela época, a família Siaulys morava em uma modesta casa, construída com muito trabalho sacrifício e suor. O Victor nasceu nessa casa na Rua Venâncio Ayres, em 1936. O pai foi construindo devagar, à medida que o dinheiro ia entrando de seu trabalho como empregado na seção de velas de sebo do Matarazzo. A casa era, a princípio, cheia de problemas estruturais, porque tinha sido construída em condições precárias. Um dos fatores mais sérios é que, por falta de conhecimento, tinha um ramal de esgoto que estava um pouco abaixo do nível da linha principal da rua em que passava o esgoto. Na época, a rua era sem calçamento. Também não tinha calçada.

Do lado esquerdo de quem olha para o sobradinho havia a casa do seu Américo, um bicheiro rico que morava ao lado do Victor, seu padrinho de batismo, e era pai de três filhos. A Zuleica, a mais velha; a Marlene, a segunda; e o terceiro, o caçula Luizinho. Do lado direito morava o José Vausnikia, filho único, com a mãe viúva que também tinha vindo da Letônia em busca de melhores dias e mais felizes tempos aqui em São Paulo. A casa situava-se entre o quadrilátero das ruas Caraíbas, Diana e Turiassú, atrás do campo de futebol do então chamado Palestra Itália. Foi nela que conheci a família Siaulys por volta de 1942. Lembro-me bem da casa. Na parte de cima do sobrado, onde a família Siaulys morava, tinha dois quartos, uma pequena sala de jantar, uma cozinha e um banheirinho nos fundos. A parte de baixo era alugada para outras famílias. No fundo do quintal, tinha algumas árvores frutíferas, como amoreira e ameixeira, e um frondoso abacateiro. Ali é que nós, as molecadas da rua, fazíamos nossos balões para comemoração das festas juninas.

O Antonio, irmão mais velho do Victor, era especialista na confecção de vários tipos de balões. Na época, caia muitos balões no estádio do Palestra Itália porque era uma área grande, muito aberta. Lembro-me também que o Antonio tinha uma lousa muito grande onde ele estudava durante o dia. Ele era um pouco “nerd”. Inicialmente, estudou física na USP porque demorou três anos para entrar na faculdade de medicina. O Antonio, hoje, é médico neurologista. Como eu, ele também ele foi pegador de bola de tênis para ganhar alguns trocados e levar para casa para ajudar a família no sustento do mês.

O campo do Palmeiras, onde muitas vezes passamos a nossa infância e meninice, tinha um estádio ainda muito precário. As cercas eram de madeira baixa, deixando o campo de futebol quase aberto. Os fundos da casa do Victor faziam divisão com a casa do Dino Sani, que foi um jogador muito importante para o Brasil. Era na Rua Venâncio Aires com a Rua Diana onde nós jogávamos bola no meio da rua, onde fazíamos as traves com pedaços de tijolos. O Victor jogava no gol, outras vezes jogava brincando de cabecear a bola em um arco de ferro na entrada da casa. O Dino e mais o Robertão (Dungão), o Wilmar (Quito), o Ismael (Maé), o Fernando (Nanico) e mais alguns moleques da rua jogavam com outros moleques de outras ruas vizinhas. O Dino tinha grande habilidade com a bola e acabou sendo um grande jogador do futuro. A rua era calma, não tinha praticamente nenhum movimento de carros.

Na frente do campo do Palestra Itália, na Rua Turiassú, havia uma pontezinha de madeira e debaixo passava um córrego que hoje está canalizado. Na época, assistimos a uma grande tragédia: um grupo de três garotos, todos nossos conhecidos, ao atravessar imprudentemente na frente de um ônibus parado no ponto, foram apanhados em cheio por um caminhão da Antártica em alta velocidade, matando dois instantaneamente: o (Adalto) e o irmão (não lembro mais o nome) e o terceiro, o Gustavo, ficou gravemente ferido. Aquilo foi uma verdadeira tragédia naqueles tempos de pouco movimento nas ruas da cidade. Por uma dessas casualidades, depois de trabalhar com o pai que na época já tinha uma banca de peixes nas feiras livres, o Victor arrumou o seu primeiro emprego no Citibank, onde ele conheceu a Mara, sua futura esposa. Depois, foi trabalhar na Rádio Bandeirantes como locutor comercial. Após algum tempo, um amigo o convidou para trabalhar como propagandista de produtos farmacêuticos.

O primeiro emprego nessa nova vivência foi nos laboratórios da Sidney Ross, Winthrop, na Rua Vieira de Carvalho, próximo à Praça da República, onde também trabalhei. Naquele tempo, havia um laboratório nacional que já existia há dezessete anos e era uma casa familiar, cujo proprietário era uma pessoa extremamente criativa. Um dos donos era um italiano. Ele tinha uma série de produtos com características muito interessantes. Eles tinham um produto para vender somente em repartições públicas. O Victor descobriu um amigo dele, o Celso Villela, um contemporâneo dos tempos do colégio estadual que tinha um tio que trabalhava nesse laboratório, o Sintofarma. O laboratório ficava na Rua Dona Antonia de Queirós. Ali foi paixão a primeira vista. Lá o Victor criou uma série de coisas novas, como o Uroplex e começou a desenvolver novos produtos, novas marcas e novas técnicas de propaganda. E começou dar assessoria completa para eles. Daí montou uma representação: o Prodoctor, uma empresa comercial, juntamente com os sócios Aldamiro (Miro) e o Depieri, ambos ex-propagandistas da Squibb.

Segundo consta, eles eram capazes de vender até água para a Sabesp. No entanto, tinham que entrar com o dinheiro que haviam recebido da indenização da Squibb. Daí começaram a montar uma nova empresa. Estava já tudo dividido: 25% para cada um. Começaram a montar o escritório que ficava embaixo da fábrica de móveis do irmão do Aldamiro, o Miro. Era uma espécie de garagem que eles alugaram. Começaram a procurar um laboratório para comprar. E aí aparece no Estadão um anúncio na área de negócios e oportunidades, um laboratório a venda em Santana. Era um laboratório que tinha 15 donos, mas tinha uma marca muito forte, que era o Aché. Era de um médico, o doutor Philippe Aché, que tinha sido muito famoso em Ribeirão Preto e tinha uma clínica extraordinária, e começou a trabalhar muito com a linha de soros extraídos de animais. Na época da compra, esse médico já tinha falecido e uma parte tinha ficado com os seus sucessores. Mas, eram 15 donos ao todo. Foi fácil comprar. Compraram por um preço muito barato. Ele foi totalmente parcelado.

Então qualquer dinheiro que viesse para os antigos donos era bem vindo. Com o faturamento, eles foram pagando as prestações. Como o laboratório tinha um bom conceito ético, eles preservaram o nome. Quando a dona Lúcia Aché, que era a filha do Philippe Aché, foi à farmacêutica responsável, até a sua morte, sendo depois sucedida pela farmacêutica Emy. Foi em 1966. O prédio tinha 1000m², de frente ao Cemitério do Imirim na Rua Nova dos Portugueses. Eles compraram o prédio e as máquinas que estavam totalmente superadas. Então, começou um processo de desmontagem do laboratório. Naquela época, o Victor e os sócios continuavam representando o Sintofarma, através da Prodoctor. Depois, lançaram no mercado o Moderex (produto para emagrecer) e o Somalium. Resumindo: o Victor Siaulys foi um vitorioso empreendedor. Acompanhei a sua trajetória de empresário bem-sucedido no ramo de produtos farmacêuticos. Fui seu colega de infância e na juventude trabalhei também junto com ele carregando pasta pelos hospitais e consultórios de São Paulo. Estive no ramo como propagandista de produtos farmacêuticos em diversas empresas multinacionais, onde acabei me aposentando.

Hoje, o Aché é o maior laboratório de produtos farmacêuticos nacional com um faturamento anual de aproximadamente de um bilhão e meio. Aqui é um pequeno resumo da trajetória de um menino simples, vindo de uma humilde família, filho de um modesto funcionário das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, toda poderosa na época. O Victor Siaulys também partiu para o ramo da hotelaria lançando o hotel Unique, Unique Gardem projeto do Ruy Otake; foi também pesquisador de produtos fitoterápicos no seu sítio, em Mairiporã. Empresário, fundador da Laramara, Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual, instituição modelo, dotada de toda a infraestrutura para dar assistência aos carentes visuais do qual era idealizador também com sua esposa, a Mara.

Sua filha, Lara, nasceu prematura e com problemas na retina, o que acabou por causar a perda da visão. A Lara foi vítima de retinopatia de prematuridade, decorrente de excesso de oxigênio em ambos os olhos. O Victor dedicou dezessete anos em prol dessa extraordinária causa até o fim de sua vida. Faleceu aos 73 anos de idade. Fica aqui o registro ao bom amigo, colega de profissão e companheiro dos folguedos de infância da Rua Venâncio Aires na Vila Pompéia. E que Deus o tenha no lugar que ele merece.

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