Tinha nove anos, estava no primário, no Grupo Escolar Romão Puiggari, morava no Braz, a professora organizou uma visita ao Parque do Ibirapuera, recém inaugurado, minha mãe concordou com minha ida, e lá fui eu feliz, com minha lancheira de couro, um lanche de mortadela e uma garrafa de Crush que para mim tinha sabor de Deus.
Fiquei deslumbrada com tudo, tinha um laguinho com marrecos e patos que ficavam correndo pedindo comida, brinquei muito, em um carrinho da Kibon, ainda, comprei um pirulito de tangerina e umas bananinhas amarelinhas, azedinhas que até hoje sinto vontade, mas não existem mais… O sabor de tudo era diferente, mais puro, por isso que não esqueço o sabor da minha infância.
Tem uma coisa que até hoje, se bem feito, tem o mesmo sabor, o sonho de padaria, mas tem que ser o de creme, igual o que eu levava de lanche para a escola, onde o cheiro do sonho se misturava com o cheiro do couro da mala e a ansiedade para chegar a hora do lanche era grande.
Abrir a lata de Toddy que tinha uma chavinha, que virando saia uma fita de lata, dava trabalho, era difícil, mas o sabor do Toddy era maravilhoso… Um dia estava abrindo uma lata, meu irmão puxou, pois ele queria abrir, a lata cortou meus dois dedos, foram dias com curativos e de muita dor, mas quando acabava uma, tinha sempre outra.
O café com leite purinho Vigor ou Paulista e pão fresquinho com manteiga era uma delícia! Tinha sabor de infância. Quando apareceu a margarina, pura, feita com gordura de coco, o gosto era maravilhoso. Não lembro o nome da margarina, acho que era Saúde… Novidade e fez sucesso!
A salsicha que ficava pendurada no varal do açougue do Senhor Atilio, na Rangel Pestana, era um senhor muito alegre e simpático, fazia questão de oferecer, e eu saia comendo devagarzinho para não acabar nunca, de tão saborosa que era, quem viveu esse tempo vai lembrar.
Recordar faz muito bem, tivemos uma infância de muitos sabores, inimitáveis, sabores esses que ficaram para sempre em nossas memórias, que nos fazem sobreviver.