Naquele tempo, em que as ruas de São Paulo ainda eram de terra com muitas crianças brincando enquanto as mães, usando aventais, corriam de um lado para outro ou para comprar verduras e frutas, como a do senhor Manoel, um português que chegava com sua carroça e gritava:
– "Berdureiro".
Logo a carroça ficava rodeada de vizinhas, conversando e trocando receitas ou iam atrás dos filhos para almoçar e ir para a escola.
Tinha, por essa época, a visita do Divino Espírito Santo e eu quando criança até então não entendia direito o que significava aquele ritual e ficava observando os adultos beijando a bandeira com muita fé e respeito. Eles iam chegando, um deles com uma coroa e cetro representando o imperador e seus mordomos carregando um estandarte vermelho, com uma pomba branca bordada no centro e sete fitas coloridas representando os sete dons do Espírito Santo (Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor) que são a fonte de toda a virtude e de toda a sabedoria, devendo guiar os irmãos.
Se a dona da casa permitisse entravam nas casas e abençoavam todos os seus aposentos e os moradores ou ficavam na rua aguardando as pessoas para abençoarem e receberem um donativo. E a criançada ficava extasiada com aqueles personagens saídos de alguma fábula.
Anos mais tarde fui descobrir que era um ritual vindo de Portugal e que ainda hoje acontece em muitas localidades do Brasil. Ivan Lins retratou muito bem essa devoção em sua canção Bandeira do Divino:
“Os devotos do Divino vão abrir sua morada
‘Pra’ bandeira do menino ser bem vinda, ser louvada, ai, ai
Deus nos salve esse devoto pela esmola em vosso nome
Dando água a quem tem sede, dando pão a quem tem fome, ai, ai
A bandeira acredita que a semente seja tanta
Que essa mesa seja farta, que essa casa seja santa, ai, ai
Que o perdão seja sagrado, que a fé seja infinita
Que o homem seja livre, que a justiça sobreviva, ai, ai
Assim como os três reis magos que seguiram a estrela guia
A bandeira segue em frente atrás de melhores dias
No estandarte vai escrito que ele voltará de novo
E o Rei será bendito, ele nascerá do povo, ai, ai”.
Curiosidades que trazemos na lembrança e os bons tempos em que deixávamos entrar estranhos em nossa casa sem o menor problema.
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