Quando eu cheguei à Vila Maria, no remoto ano de 1955, vindo de uma pequeníssima cidade do interior, chamei os cabos de ligação do bonde com a rede elétrica de "suspensórios". Os dois fazem parte da minha infância e já eram considerados ultrapassados. No meu primeiro ano de Colégio Paulo Egydio ainda caminhava pelas ruas da vila, nas manhãs frias da nossa cidade, vestido solenemente com paletó, gravata e suspensórios a impedir que a primeira "calça comprida" ficasse pelo caminho.<br><br>Felizmente no segundo ano do então "ginasial", o colégio instituiu o uniforme acompanhado do blusão encimado com a sigla CESPEOC. Aposentei a gravata, o paletó e, de quebra, os suspensórios. Os bondes me acompanharam por um tempo maior. Três linhas serviam o bairro, a 34 que ia da Praça Santo Eduardo à Praça da Sé, a 67 que estendia o percurso pela Rua Mére Amedea até a Praça Cosmorama e a linha 61 que demorava exata uma hora para atingir a Casa Verde.<br><br>As primeiras letras eu conheci nos bondes, mesmo antes do primeiro ano escolar, através dos jornais esquecidos nos bancos ou pelos anúncios estrategicamente colocados de forma que todos os passageiros os vissem. Um homenzinho passando o pano em um enorme olho: "Lavolho conserva seus olhos sadios"; um sujeito musculoso com os braços em arco, mãos na cintura: "Biotônico Fontoura, o mais completo fortificante".<br><br>O anúncio era chamado de reclame e, graças ao alto índice de analfabetismo do Brasil à época, os cartazes mostravam os produtos usando mais imagens do que texto. O homem, quase que totalmente calvo, tentando alcançar o macaquinho que levava seu frasco de “Loção Phenômeno” não necessitava de maiores explicações. A exceção ficava por conta do mais conhecido reclame, cujos versos são atribuídos a Bastos Tigre ou a Ernesto de Souza, que mostrava um homem sentado ao lado de uma bela mulher: "Veja, ilustre passageiro,/O belo tipo faceiro/Que o senhor tem a seu lado./E, no entanto, acredite,/Quase morreu de bronquite./Salvou-a o Rum Creosotado".<br><br>Em 1947 chegou à cidade de São Paulo o bonde "Centex", assim apelidado porque trazia na porta central os dizeres Center Exit (saída central). Antes disso, surgiu o bonde pintado de vermelho e totalmente fechado, substituindo os abertos que permitiam aos passageiros fujões viajarem de graça. Imediatamente foi chamado de "camarão” e demorou a cair no gosto da população que reclamava da falta de ventilação e também da superlotação. Daí surgiu à expressão "viajar como sardinha em lata".<br><br>Outra expressão é "Almofadinha" (bem vestido): designava o passageiro que levava uma almofada para enfrentar o duro banco de madeira. Ser correto virou "andar na linha", fazer mau negócio era "comprar um bonde", quem chegava ao meio da conversa era acusado de "pegar o bonde andando", quem ficou para trás "perdeu o bonde da história", mas quem levou seus negócios adiante nada mais fez do que "tocar o bonde" e quem se frustrou "tomou o bonde errado".<br><br>Em 1929 o bonde 34, Vila Maria, descendo a Rua Catumbi deu de cara com o elefante Eli, que fugira de um circo. O bonde tombou e Eli ficou desacordado por 2h. Surgiu o termo "trombada", sinônimo de qualquer acidente. Bons e maus tempos, enquanto se aprendia a ler nos bondes a bronquite ainda ameaçava de morte os belos tipos faceiros.<br><br><br>E-mail: [email protected]