Um baile de carnaval no Club Homs

Não me lembro de uma passagem arriscada e tão engraçada quanto à da vez em que fomos "gentilmente" convidados a ir embora de um baile de carnaval. Pra variar o “Ovo”, eu e de quebra o Terrinha somos os personagens. Era o carnaval de 1969 e tínhamos os nossos 17 ou 18 anos.

Meu irmão mais velho, o Ézio, tinha um jipe 1951 que era uma sensação: tinha um chassi alongado permitindo um banco com espaço folgado para duas pessoas atrás, branco de rodas raiadas de um Ford 32 e uma capota, só o teto, listrada em azul e branco. Parecia uma barraquinha de doce em shopping. E ele, meu irmão, já estava cansado do jipe, acho que gostaria de ter um pouco mais de privacidade com um carro e resolveu vendê-lo em uma quinta feira, véspera de carnaval. Era uma tarde quente e ele me chamou junto com o meu inseparável amigo o Ovo para irmos à região dos Campos Elíseos, a chamada “boca” para tentar vender rápido o jipe, aproveitando assim a maré de carnaval e pegar um bom preço.

No caminho pela Radial Leste já recebemos um sinal daquelas pessoas que ficavam dando sinal com a mão como se estivessem contando dinheiro, os conhecidos como Chapas para perguntar se queria vender o carro. Meu irmão parou e a conversa já veio:
-"Ta querendo quanto na jóia?".

Meu irmão disse o preço e o sujeito já subiu no banco da frente, mandando eu e o Ovo para o banco traseiro já dizendo que tinha quem comprasse. E rumamos para a Rua Barão de Limeira. Pelo caminho ele disse ser músico, tocava em uma banda de carnaval. Chamava-se Ari do Pistão, que tocaria no sábado de carnaval no Club Homs da Avenida Paulista, e para ganhar a confiança e amizade para vender o carro, disse que estávamos convidados, que ele nos colocaria de graça dentro do baile. Diga-se de passagem, tratava-se de um clube fechadíssimo na época e só tinha acesso uma boa parte da elite paulistana.

Conversa vai, conversa vem, paramos na loja indicada e o meu irmão conseguiu vender o jipe, dando uma gorjeta para o tal Ari do Pistão. Ele agradecido mais uma vez insistiu que fôssemos ao baile. OK! Aquilo soou como um sino dos deuses nos ouvidos de dois duros como nós e um baile desses de graça não poderíamos perder de jeito nenhum.

Não deu outra: sábado à noite, por volta das 21h estávamos na porta do Club Homs aguardando a chegada do tal Ari do Pistão. Esse dia o Terrinha foi junto porque ele queria experimentar outros ares diferentes dos bailes da Arca da Mooca. Não demorou muito o tal do Ari chegar e quando o identificamos ele fez uma cara de espanto de "Poxa, não podia imaginar que eles viriam…".

Cobramos a sua promessa e ele, com cara de "agora não tem mais jeito" nos mostrou como iríamos entrar. Nessa hora deu um pouco de medo. A segurança do baile era muito rigorosa e nada, absolutamente nada passava sem a devida autorização expressa. O tal do Ari nos instruiu pra dizer à segurança que fazíamos parte do conjunto, mas tínhamos que entrar em fila indiana espaçados um do outro pra não levantar suspeita, já que não estávamos vestidos como músicos de banda de carnaval. A estratégia era que cada um de nós entrasse e indicava o polegar para traz dizendo:
– "Faço parte da banda que ‘ta’ vindo aí…".

Um como técnico de som, outro de técnico de palco e outro de ajudante dos músicos… Que grande mentira! Nós tínhamos cara de qualquer outra coisa menos disso. Mas a manobra funcionou e entramos. Mas para entrar precisamos passar por uma espécie de corredor polonês com um monte de gente mal encarada, altos, como se fossem os seguranças de uma autoridade querendo nos devorar. E foi como se estivéssemos entrando em um cassino de Las Vegas: muito brilho, luzes, som alto, gente bonita e poderosa pulando carnaval. Um mundo que não era o nosso.

Éramos de classe média e entrar em um mundo daqueles era uma vitória, um fato que nos daria horas de conversa com os amigos. É, mas ninguém esperava que estivéssemos sendo vigiados. Estávamos vestidos normalmente, traje de sábado a noite dos anos 60, jeans e camisas normais, mas só isso era normal: a nossa alegria e o nosso entusiasmo típicos da nossa idade, a euforia de estar num baile de carnaval chique e requintado, com tantas meninas bonitas de fato eram um pouco, eu diria, exagerados.

Entramos no salão já procurando as meninas como lobos e tentando com flertes e conversas conseguir alguma companhia. Só o nosso jeito já fazia a distinção, mas éramos nós mesmos, não podíamos fingir outra coisa. A artilharia continuou até que os três se separaram. Cada um para um lado do salão ninguém sabia de ninguém. Eu fiquei em um canto conversando, com certa dificuldade por conta das musicas, com algumas meninas sentadas em uma mesa de família, de vez em quando eu via o Ovo passar abraçado com duas garotas, pulando, cantando, com um monte de serpentina no pescoço, apitando em uma felicidade só… Mas nada do Terrinha!
– "Onde esse cara se meteu?" – pensei.

De vez em quando dava uma volta pelo salão pra ver onde aquele cara podia estar e voltava perto do lugar onde estava para poder marcar uma referencia. Via o Ovo passar de novo com outras garotas diferentes das outras, mas nada do Terra. Beber a gente não podia. Na verdade podia, mas o dinheiro era o fator limitante. Só tínhamos a grana do ônibus e beber nesses bailes era muito caro. Ou "filávamos" de alguém ou ficávamos a seco.

Passa o Ovo e nada do Terra outra vez… Comecei a ficar preocupado, pois já eram mais de 3h e tínhamos combinado de voltar juntos. Eu não me excluo da farra, também fiz as minhas com varias garotas no baile, pulando, brincando pelo salão e tentando conseguir algo além de um sorriso…

Eis que olho por sobre as cabeças dos foliões e vejo uma menina de havaiana pulando bem alto acima… Olhei mais abaixo para ver quem era o malandro que estava pulando com ela nos ombros… Era o Terra!

Eu não sei até hoje como foi que conseguiu tal feito porque força e resistência não era o seu maior atributo, só a farra! Parecia um doido pulando e cantando as marchinhas, parecia que estava fora de si e nem enxergava dos lados, tanto que nem percebeu quando o segurança do baile agarrou-o pelo braço:
-"Ô rapazinho, vem aqui fora conversar, vem!"

Tratei rapidinho de me desvencilhar das meninas ir correndo encontrar o Ovo para juntos livrarmos a cara do Terra. Quando chegamos perto já com três seguranças em volta do Terra perguntamos o que tinha ocorrido e mais que depressa o chefe deles já nos enquadrou:
-"Estão juntos?"
– “Sim, o que aconteceu?"
– “O amiguinho de vocês fez uma coisa que nunca permitimos e não vamos permitir neste clube que é dançar com mulher nos ombros. É contra os costumes dos sócios e vários deles já nos
reclamaram. E por isso agora ele vai para a rua!"
– "Não, não, a gente não faz mais isso não, vamos brincar bonitinho…" – eu e o Ovo respondemos.
– “E outra, faz tempo que eu tô só ‘manjando’ vocês. Como é que vocês entraram aqui? Esse baile é só para sócios e eu não conheço vocês?".

Foi nessa hora que faltou a malandragem e um treino para situações de emergência, cada um deu uma resposta diferente:
– "Pela porta” – disse o Terra.
– “Eu fui convidado pela menina ‘tal’, que já foi embora” – disse o Ovo
– Ah, eu! “Eu sei lá, sou primo do Ovo e vim junto” – falei , já não vendo mais saída para situação.

Mas só pela resposta do Terra já foi o suficiente para aquele mulato gordo, grande e com cara de pouquíssimos amigos tomasse a decisão:
-"Melhor para mim, ponho os três para fora agora…".

Não teve nem uma segunda chance. Seu "poder de persuasão" era muito mais forte que o nosso e lá fomos nós três, de cabeça baixa para a porta de saída, acompanhados por outros tantos bem mais fortes e mal humorados.

Quando pusemos os pés na calçada da Avenida Paulista, tocou aquele acorde famoso de final de baile: eram 4h. Ouvimos aquele toque de pistão do Ari e caímos de tanto rir. Não tínhamos perdido quase nada do baile e a nossa aventura estava dada como completa!

Quando nos reunimos, até nos dias de hoje nos lembramos dessa façanha, às vezes acrescentamos outros detalhes, mas tenham certeza de que nós três rimos muito… Como três moleques.

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