Eram quase 2h. Michelle e eu regressávamos do Rio de Janeiro no derradeiro voo – quase sempre fora do horário… O saguão do velho Aeroporto de Congonhas estava vazio. Pouco antes de ganharmos a porta da saída, ouvimos uma voz atrás de nós:<br>- “Hei, não me conheces mais tchê?”<br><br>Era o Anselmo Duarte. Conhecemos o Anselmo na antiga Atlântida Cinematográfica, junto com o amigo Cyl Farney. Segurava o copo de uísque na mão. Pela feição, não parecia ser o seu primeiro trago. Explicou que estava à espera do equipamento de filmagens. Iria dirigir uma cena junto ao Balcão de Bilhetes da Ponte Aérea para o filme "Ninguém segura essas mulheres". Anselmo colocou seus braços em torno de nós e sem que pudéssemos resistir, nos levou para junto de uma mesa especialmente alocada para ele.<br><br>Ao sabor do bom "scotch" contou-nos a respeito do filme. Eram quatro historietas envolvendo bigamia e sexo. Quase comparável a uma pornochanchada. Eram três da madrugada. Michelle mostrava-se exausta e eu mais ainda. Além de bom diretor, ator e escritor, Anselmo sempre foi considerado um notável contador de estórias. Enquanto esperávamos pela "troupe" cinematográfica ele nos contou, com apurada elegância, as dificuldades em dirigir cenas de massa como acontecera nas filmagens de "Um certo Capitão Rodrigo".<br><br>As locações aconteceram em pequenas cidades no Rio Grande do Sul. Quatrocentos cavaleiros atuaram nas cenas de batalha e 1100 trajes de época foram confeccionados. Os cavaleiros "atingidos" com um tiro deveriam cair do cavalo:<br>- "Cair do meu cavalo tchê?"<br><br>Assim, foi o início da pequena tragédia. O gaucho, contava Anselmo, não se permite cair do seu "pingo" (cavalo). Considerava-se "mui macho". Ele fez de tudo para convencê-los, debalde. Anselmo tinha um ajudante especialista em detonar explosões no "campo de batalha" imitando tiros de canhão. Seu apelido era "Preguinho". Preguinho usava uma pequena tábua com regos cravados pela metade. A cada prego ele ligava um fio. Cada prego destinava-se a um detonador coberto com uma pequena porção de pólvora preta, distribuído e enterrado pelo "campo de batalha". O contato era feito manualmente com um fio positivo em sua mão. Assim sendo, as explosões eram facilmente controladas fazendo contato do fio positivo com cada um dos pregos.<br><br>Como os cavaleiros recusavam-se a cair dos seus "pingos" o Anselmo, secretamente, deu instruções ao Preguinho para detonar alguns dos explosivos no momento da passagem de alguns cavaleiros. E assim foi feito. Porém, houve cavalo que relinchou, que empinou, que escoiceou, mas não houve nenhuma queda de cavaleiro.<br><br>Anselmo ordenou ao seu ajudante que recarregasse todos os buracos espalhados pelo campo novamente. Iriam repetir a cena. Preguinho portava um pequeno barril debaixo do braço e a cada local, fazia despejar uma porção da pólvora. Infelizmente, em um dos buracos ainda havia incandescência da explosão anterior. Sem perceber, ele entornou a pólvora. Não foi bem uma explosão, mas um queimar instantâneo da pólvora. Preguinho ficou envolto em uma nuvem de fumaça negra. Todos correram em seu socorro. Ele estava usando uma camiseta de nylon. Com o calor gerado pela queima, a camiseta fundiu-se formando um colar preto em torno de seu pescoço. Para sua sorte, não teve nenhuma queimadura grave. Seus cabelos ficaram levemente chamuscados. Foi um grande susto, mas por incrível que pareça ele estava pronto para continuar.<br><br>Em vista do acidente e de todo o resto, Anselmo resolveu adiar as filmagens. No dia seguinte, Anselmo foi visitar times de futebol na região. Entrou em contatos com todos os goleiros disponíveis para servirem de cavaleiros. Eles não sabiam cavalgar, mas uma coisa Anselmo tinha certeza: eles sabiam como cair. Assim foi feito e as cenas de "queda de cavalo" foram satisfatórias.<br><br>Anselmo estava pronto para contar uma outra das suas aventuras, quando mais que de repente um exército de pessoas adentrou o local. Eram os extras e toda a parafernália para filmagem. Técnicos, eletricistas, “cameraman”, continuistas e toda a sorte pessoas envolvidas naquela filmagem. A cena deveria ser com o Jorge Dória (ator) discutindo no balcão a respeito do seu bilhete. Quando ele lá estivesse, alguns extras deveriam segui-lo e se juntariam ao ator. O Anselmo começou a movimentar-se e o burburinho fazia lembrar abelhas em ponto de ataque. Quando tudo estava pronto para filmar, ele chegou-se até nós e disse que Michelle e eu iríamos fazer às vezes dos dois extras.<br><br>Quando o Jorge Dória chegasse ao balcão, nós caminharíamos em sua direção e permaneceríamos ao lado dele:<br> -“Iremos tirar o lugar dos extras, eles ganham para isso? – Anselmo sorriu.<br>- “Os extras não recebem cachê, eles desejam tão somente aparecer no filme” – e assim fomos e fizemos.<br><br>Foi uma pequena tomada de não durou mais do que dois minutos, mas que levou horas para de preparo como foi acontecer em todas as filmagens. Quando a cena acabou, antes do até logo, Anselmo nos convidou para passarmos o próximo domingo em sua casa, em Salto de Itu.<br><br>E Assim foi feito. Foi uma tarde deliciosa junto à grande piscina. Tivemos churrasco, uísque e muito mais estórias que somente ele sabia contar. Anselmo, um cineasta apaixonado, mas muito mais que isso foi um amigo inigualável, honesto, sincero e querido por nós.<br><br>PS: Michele e eu nunca tivemos a oportunidade de assistir ao filme depois de<br>pronto.<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>