Tempos difíceis, tempos de guerra. Década de 40, meus pais com nove filhos em casa, os mais velhos, Vito e Ana Maria, já se preparavam pra vida matrimonial; outras irmãs, Mariuchinha e Carmela (Lita), trabalhavam em casa, pespontadeiras de calçados, meu irmão Vito era contabilista e a Ana, costureira formada em escola italiana de modas. Ela se casou com Arnaldo Passacantando, verdadeiro "capatosta", ciumento como uma velha, cortou o futuro da Ana em trabalhar para grandes modistas (quem viu as fotos da Myrtes no casamento, pode aquilatar como minha irmã Ana era uma super-modeslista). O Vicente era gráfico, Santo, marceneiro e eu me virava com as caixas de uvas nos finais de ano, no Mercadão, ganhando o suficiente para uma entrada no Cine Glória (meia-entrada 1.500 réis e o troco dava para uma pipoca americana). As outras duas, Rosalia e Joana, menores que eu, ficavam em casa até chegar o tempo da escola.
Em casa, polia todos os sapatos da família, retirava lenha da fábrica de formas do Sr. Giacomo Chiarella (pai do antigo craque do Corinthians, Rafael) para alimentar nosso fogão Sangiovani a lenha. Morávamos a duas quadras do Gasômetro, mas minha mãe não queria o gás de rua (era o único), pois tinha medo. Eu, com dez anos, ajudava também minhas irmãs refilando, passando cola benzina (não sei como não me viciei), dobrando, aparando as linhas, enfim, ajudava dessa maneira, sem deixar de ir ao Grupo Escolar Romão Puiggari, de manhã ou a tarde se passava de ano. Nunca repeti os quatro anos, pois ia lendo muitos gibis que meu irmão Santo comprava. Meu primo Vito Mônaco (hoje grande fabricante de gaiolas) me emprestava os outros gibis antigos, como o Guri, o Lobinho, Gibi mensal e Globo Juvenil Mensal (100 páginas), mas em troca sempre queria que eu lhe emprestasse outras revistas, senão, “necas”.
Por essa época (1942 e 1943), meu pai tinha armazém na Santa Rosa em sociedade com meu tio Francisco – Tzi Ciccilo (seu irmão) e lutava para que o orçamento doméstico não terminasse antes do mês. As despesa do lar eram administrada com "mão de ferro" pela minha saudosa mãe (Que saudades dela! Escrevendo estas linhas, estou ouvindo "O Trenzinho do Caipira" do Villa Lobos, na Cultura e me lembrei logo dos passeios de trem até Mogi das Cruzes, que fazíamos mas, isto é outra história…).
Dentre todas as despesas obrigatórias que uma casa com onze pessoas tem, a administração rigorosa e saber distribuir na alimentação, roupas, escolas, médicos etc., meus pais eram criativos. O pão era feito uma vez por semana, todos os sábados; falta de trigo, improvisava-se com macarrão argentino; médicos não tinha jeito, era o Dr. Delape para todo mundo. Agora chegou o item, que já era caro na época, não tinha como fugir. Meu pai tinha hérnia viril e sempre recorria a uma casa especializada em suportes de couro comprados numa casa alemã (meu pai, meio fascista, tinha uma certa atração pelos alemães) na Rua da Liberdade. Pois bem, por intermédio do dono da loja, soube da existência de uma dentista alemã, que não podia clinicar, no Brasil, devido as determinações legais. O sr. Wolff (vamos chamá-lo assim pois não lembro o nome dele) informou a meu pai que ela, a dentista, atendia a domicílio, não cobrava mais por causa disso e era uma profissional competente.
Como nós, as crianças, ficávamos em casa, meu pai resolveu suspender as consultas ao dentista da família, acertando com a dentista alemã os dias e horas para atendimento dos membros da família Laruccia. Alguns não concordavam devido a questão de higiene, mas, devido ao imperativo determinado pela economia doméstica, todos tinham que se submeter. A Dra. Gertrudes (vamos dar esse nome, o verdadeiro, não lembro), dispunha de um auxiliar, que só falava alemão. Eu me divertia muito pois sempre era o mentor das alegres refeições domingueiras que Dona Feli preparava com muito amor. Eu imitava com certa perfeição o linguajar germânico, punha um pente abaixo do nariz a guisa de bigodinho, puxava o cabelo pqra frente, levantava o braço direito e gritava: “Heil Hitler”. Fazia, também, o “Hans Von Chukruts”, da rádio Record.
Essa alegria terminou quando chegou a minha vez de ser atendido pela “Her” Gertrudes, uma senhora alta, loira, beirando os quarenta anos. Ela não tinha nenhuma preocupação em ser delicada, tinha que arrancar dente, como no sistema germânico. Minha mãe emprestava uma toalha, então a dentista punha uma caneca com água morna, mandava abrir a boca e dizia:
– " ‘Fai’ dor um poquinho". “Ah”, para mim que me tinha muito medo de dentista, usava minha super capacidade de criação: Agendava-se o dia e a hora para meu atendimento, ficava esperto, quando tocava a campainha da casa (morávamos na Rua Alfândega, tinha um longo corredor) surpreendentemente eu levantava da cadeira e dizia:
– “Deixa que eu vou abrir a porta”.
Como eu acertava em cheio (a necessidade obriga), convidava-a a entrar e quando ela estava a caminho da sala, eu escapava para rua e só voltava na hora do almoço. E sabem o que ganhei, fugindo de todos os dentistas, a vida inteira? Perdi todos os meus dentes antes dos 30 anos. Não valeu a pena e hoje vejo meus filhos cuidarem da saúde bocal com muito prazer, até ajudo, se for necessário. Obrigado a todos.
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