Sempre gostei de Carnaval. Quando eu era menina, sempre íamos brincar o Carnaval em salões do bairro do Brás onde nasci. Clube dos motoristas, ou dos gráficos na Rua da Figueira, e tinha uma tarde que o Sr. João nosso vizinho que tinha um caminhãozinho nos levava a dar umas voltas no bairro, juntava umas crianças, colocava todas na traseira do caminhão e lá íamos nós com serpentina, confete, lança-perfume e muito barulho. Era a maior folia! E meu pai deixava tudo, pois não tinha perigo nenhum naquele tempo. E assim eram nossos Carnavais…
Em 1956 eu tinha 12 anos e tinha umas amigas que eram mais velhas que eu, elas já tinham 14 anos e, naquele Carnaval, elas resolveram ir num salão que a entrada era proibida para menores de 14 anos. Quando me contaram eu também queria ir, mas como? Passei a noite inteira sem dormir pensando o que fazer. Naquela manhã de Carnaval eu tive uma ótima ideia. Pedi emprestado pra minha amiga Mercedes que morava na Rua Caetano Pinto a certidão de nascimento dela, pois ela já tinha 14 anos, ela me emprestou agora eu tinha que convencer meu pai a me deixar ir, mas não convenci. Foi uma choradeira só! Meu pai, vendo todo aquele drama que eu fiz, disse que só me deixaria ir acompanhada da minha mãe. E para mim tudo bem.
Na hora do baile lá fomos todas juntas, minhas amigas, eu e minha mãe levando na bolsa a certidão de nascimento da Mercedes. Minhas amigas eram maiores e mais desenvolvidas um pouco mais que eu, realmente eu não aparentava ter mais idade. Quando chegamos, elas já foram entrando e na minha vez de entrar o porteiro me pediu documento, minha mãe pegou o documento da bolsa e entregou para o porteiro, ele abriu, olhou e me perguntou:
– “Minha linda, qual é o nome da sua avó?”
Eu logo pensei… O nome da minha avó eu sei, pois é igual o meu, mas o nome da avó da minha amiga Mercedes como é que eu ia saber? Pois em casa com o documento na mão eu nem tive o trabalho de ler a certidão de nascimento de tanta certeza que eu ia entrar no baile. O porteiro para me assustar falou que ia me prender e eu já comecei a chorar. Bem, vim chorando a volta toda até em casa e minha mãe apavorada acreditando no que podia ter acontecido.
Quando chegamos minha mãe contou e foi aquela gozação com meus primos, tios, avós, pois morávamos todos juntos na Rua Maria Domitilla. E eu não parava de chorar… Já me chamavam de manteiga derretida porque eu chorava por qualquer coisa. Meu pai chorava junto, com dó de mim, e ai ele teve uma ideia. Fazer um baile de Carnaval em casa e todos aprovaram.
Logo foi encostando os móveis da sala, enfeitou todo com serpentina e confete, chamou umas amigas e uns meninos da nossa idade, ligou o rádio que só tocava musicas de Carnaval nesses dias, minha mãe preparou lanches, sucos e brincamos muitas horas, e eu já estava feliz porque ai sim eu tive um Carnaval gostoso e sem nenhum problema.
Todos os anos quando chega o Carnaval eu me lembro dessa passagem da minha vida e choro, mas agora de saudades. Damos muita risada, quando comento com meus filhos e netos. Jamais vou esquecer enquanto viver.
Obrigado pai, onde o senhor estiver. Foi o melhor Carnaval da minha infância! Inesquecível!
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