Mãe acima de qualquer suspeita

Eu deveria enviar esta história mais próxima do dia das mães, mas não, pensei… Vou mandar agora enquanto a história está viva na minha memória.

Começava o ano de 1969, e eu completaria 18 anos, vivíamos a era do cabelo comprido, calças jeans justas, camisa xadrez e mocassim, que era a moda dos jovens da época e também da intolerância dos pais com a moda de cabelo comprido para homem. Mas a minha história começa alguns meses antes, quando eu estava fazendo o vestibular para entrar em alguma faculdade fácil, porque eu não era muito chegado em estudar… Não fiz cursinho, mas graças a minha habilidade (eu era craque no “chutometro” – escolher as alternativas certas nas provas) consegui entrar entre os dez primeiros na ESAN e entre os quarenta primeiros na FMU. Modéstia a parte, estava mais bem colocado que outros amigos que fizeram cursinho durante um ano.

Vencido a primeira etapa, optei por Administração na FMU que ficava na Liberdade, próxima da editora onde eu trabalhava. Assim a próxima etapa seria escapar do trote para não cortarem meu cabelo, que era como a coroa do rei, um símbolo de poder perante as garotas e outros amigos cabeludos.

Primeiro pensei em não ir assistir aulas até o dia que acabava o trote, no dia treze de maio (Lei Áurea – Libertação dos Escravos), mas achei que perderia muitas aulas que seriam difíceis de recuperar. Então, como num passe de mágica, acho que alguém cochichou no meu ouvido que existiam algumas exceções no regulamento do D. A. (Diretório Acadêmico) que evitavam cortar o cabelo para certas pessoas que preenchiam certos requisitos. Procurei saber no D.A. quais seriam estas exceções para ver se alguma encaixava em algum perfil que eu iria inventar.

De tanto insistir, acabei encontrando uma exceção que dizia que: artistas, profissionais de criação, diretores de revista, jornal etc., poderiam ser poupado do corte de cabelo e outras regalias mais.

Nesta época a editora estava lançando "As Aventuras do Tintin" em formato de livro e de revista bimensal que precisavam ter, como outras revistas, o expediente com o quadro dos profissionais que ali trabalhavam.

Meu problema estava resolvido, fui colocado no expediente como Diretor Administrativo e a revista impressa foi levada para o D. A., que aceitou meus argumentos e expediu um salvo-conduto.

Era até engraçado olhar a sala de aula dos calouros, todos carecas e apenas eu cabeludo, na hora do intervalo eu era confundido com um veterano, mas ninguém acreditava que eu era calouro. Muitas vezes precisei mostrar o salvo-conduto para os veteranos, que por incrível que pareça respeitavam o documento que foi elaborado dentro das regras do D. A.. Outro detalhe que fiquei imune, não sofri nenhum trote.

Tudo corria bem até que chegou o dia treze de maio, último dia do trote na faculdade, para minha surpresa no término das aulas, na calçada da faculdade fui cercado por muitos veteranos, inclusive um conhecido e vizinho da editora, que parecia ser o líder da "rebelião". Eles desrespeitaram o salvo-conduto cortando meu cabelo a força. Não preciso dizer que entendi o que Sansão sentiu quando cortaram o cabelo dele, mas a vida continua até que a raiva passou.

Passado alguns dias, procurei meu vizinho para saber qual o motivo desta traição e mais surpreso fiquei quando soube que por ele e os outros veteranos eu ficaria de cabelo comprido o ano letivo todo, mas como minha mãe tinha feito um pedido especial para ele (veterano): cortar meu cabelo sem despertar suspeitas da mandante do crime. Fiquei chocado e sem falar com minha mãe por muitos dias!

O cabelo voltou a crescer, agora mais comprido ainda e após a promessa de minha mãe em não interferir mais na minha vida, perdoei e voltamos a conversar sobre todos os assuntos, menos cabelo…

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