Na minha infância e começo de adolescência gostava muito de andar de bicicleta, aliás, quem não curte dar umas pedaladas como o Robinho, ex-craque do Santos? Com meus treze ou quatorze anos a onda lá na Vila Matilde eram os grupos de moleques que andavam de bike à noite. Já que éramos todos menores de idade e não podíamos dirigir o jeito era tentar paquerar as meninas usando muito xaveco, andando em turmas que chegavam às vezes a contar com trinta garotos. Me atrevo a dizer que fomos os ancestrais dos "Night Bikers", aquele pessoal que dá suas pedaladas depois que o Sol se põe. Cada um se virava como podia, ou seja, havia aqueles que tinham bicicletas simples, algumas sem freios, pintura descascada e assentos de madeira. E aqueles que possuíam as bikes mais incrementadas. Na época as melhores eram as Monaretas e as Caloi 10, com dez marchas e muito velozes. Essas poderiam ser consideradas as Ferrari das bicicletas. Nossos passeios consistiam em andar pelos bairros próximos ao nosso. Íamos até a Vila Carrão, atravessávamos a Vila Santa Isabel, Vila Formosa, Tatuapé e, então, retornávamos. Era muito legal ver a turma pedalando junta como se fossemos uma horda de cavaleiros medievais em busca de batalhas e belas donzelas.
O Ricardo e o Cacá eram dois dos garotos que possuíam melhores condições financeiras, consequentemente, suas bicicletas eram superiores aos dos outros. Ambos possuíam Caloi 10 e diziam que suas bikes eram as mais rápidas. Num sábado pela manhã a turma estava reunida na casa do Ricardo para discutir como seria o percurso da noite quando o Cacá chegou já contando vantagem. Foi então que o Ricardo resolveu chamá-lo para uma corrida no quarteirão. Como suas bicicletas eram absolutamente iguais venceria aquele que tivesse mais pernas e melhor preparo físico. Pelo menos era isso o que todos achavam. O percurso da corrida consistia em três voltas no quarteirão partindo e chegando da casa do Ricardo. Eles se prepararam e foi dada a largada. O olhar determinado de ambos e a rapidez com que começaram a pedalar deu a idéia de que seria uma disputa equilibrada. Passaram a primeira volta praticamente empatados. Na segunda o Ricardo vinha um pouco à frente e, assim, abriram a volta final. Aí aconteceu o inesperado, o Ricardo estava tão rápido que perdeu o controle da bike e se chocou violentamente contra a grade de uma casa de esquina. A pancada foi tão forte que ele voou por cima da grade e caiu dentro do quintal da casa. Todos nós corremos para ver como ele estava. Aí veio o Cacá que munido de muita boa vontade ou humor negro perguntou.
Ricardo, quebrou o relógio?
Este que se levantava todo dolorido, alquebrado, hematomas na testa e uma expressão de espanto no rosto disse:
– Não, Cacá. O relógio é à prova de choque.
Vai saber o que se passou na cabeça do Cacá.