A menina que gostava de chá com pão

Impreterivelmente na última quinzena de dezembro, em janeiro e também em julho, lá estava ela, a menina que gostava de chá com pão, em São Paulo. Sua mãe, visitava o pai e os parentes que ali residiam, anualmente.

E pontualmente às 20h, a menina que gostava de chá com pão atravessava o quintal da vila na Bela Vista e rumava para a casa de tia Carmela. Ali chegando, carregando alegremente uma grande caneca de louça na mão e sorrindo perguntava:
-“Tia Carmela, hoje o chá é de que? Será mate? Preto? Capim limão? Erva Cidreira? Camomila ou de folhas da amoreira? Terá broa, caracol, torrada ou pão italiano redondo? Da Basilicata? E torradas? Sardela? E pasta de berinjela?”

E assim, diuturnamente indagava a curiosa menina. O tempo passou… A vida mudou… A menina cresceu e uma jovem se tornou, mas o amor por tia Carmela e pelo chá com pão continuou… A caneca também mudou, mas não o aroma que vinha da chaleira na
cozinha. E logo a jovenzinha começava a indagar:
– “E hoje? Qual será o sabor do nosso chá? Teremos pão recheado com lingüiça calabresa ou bolinhos de aipim de Dona Thereza?”

As horas e minutos que o carrilhão da sala mostrava passaram seguidamente e a jovenzinha em adulta se transformara.

Tia Carmela, já idosa, da Bela Vista se mudara. Foi morar no Jabaquara, onde sempre, a já crescida menina a visitava e da porta da cozinha rapidamente, indagava:
– “E o chá está pronto? Teremos bolinhos de arroz? Pães de milho ou pão cavaca? Da padaria São Judas?”.

E foi em uma daquelas férias que tia Carmela partiu… E o mundo evoluiu! De adulta, jovem e menina, uma madura mulher nasceu… Porém em seu coração mora ainda a eterna menina que o tempo não apagou. E sabem quem é essa menina?

Essa menina sou eu!

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