Cambuquira

O diálogo a seguir traz muitas recordações olfativas, gustativas e sentimentais, e retrata a realidade de uma grande parcela da população da capital paulista, nos anos 50, principalmente entre as camadas mais humildes.

Criatividade dez e condição financeira zero, a "nonna" chamava a molecada no quintal, sempre às quintas-feiras, dia de chegada de verduras na quitanda e o dia da passagem do trem de cargas Santos-Jundiai pela estação Ipiranga, e bradava:
– “Hoje tem polenta! E amanhã tem sopa de cambuquira!"

A reação era geral:
-“Oba! O que nós temos que fazer?"
-“Os dois maiores vão pra estação de trens, com cuidado, esperem o trem passar e recolham o que acharem de grãos e farinhas."
-“Dois vão pra quitanda e aguardem o Sr. Shiro dar a vocês as verduras que vão pra caixa e não serão usadas por ele."
-“Os demais vão para o ‘campinho’ procurar cambuquira para a sopa de amanhã."

Tropa formada, todos saiam com suas missões e como bons soldados, cumpriam-na com louvor. A parte mais difícil era achar cambuquira, que é o broto de abóbora. Às vezes a gente se confundia e trazia outra coisa no lugar da cambuquira, mas a "nonna" sempre dava um jeito de aproveitar, desde que não fosse venenoso.

Dessa empreitada tínhamos dois cardápios de lamber os beiços:
1) polenta com molho de verduras e "cheirinho" de linguiça ou sardinha seca.
2) sopa cremosa de cambuquira, engrossada com o maravilhoso fubá, tipo exportação, gentilmente "fornecido" pelos trens que por ali passavam.

E, não raras as vezes, tínhamos sobremesas de amendoim, laranja engrossada com fubá, que se chama "súguli" e tantas outras que a criatividade da “italianada” pudesse inventar.

Apesar da escassez de recursos e simplicidade da vida, nenhum de nós é revoltado ou ingrato, pelo contrário, agradecidos sempre pela oportunidade que tivemos de ter vivenciado tantas experiências que contribuíram para a formação de nosso caráter.

De vez em quando faço uma sopa de cambuquira, mas o gosto nem de longe é o mesmo daquela época e nem minhas mãos se comparam às mãos maravilhosas da "nonna" e das "mammas" que nos aqueciam com a sopa e com seus corações.

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