Japonês no "Il Cacciatore"

Não fui testemunha desta história, mas conheci seus protagonistas e o restaurante.

"Il Cacciatore", tradicional casa do Bexiga, se diferencia do geral das cantinas dali por preparar comida do norte da Italia, do Veneto, da Lombardia, ao contrário das outras, geralmente napolitanas.

Estivemos lá hoje, para almoçar, e estava absolutamente igual, inclusive na qualidade, aos bons tempos em que trabalhei na Denison Propaganda, na Brigadeiro, há quase trinta anos.

Pois foi justamente na Denison que se iniciou esta história, algum tempo antes de minha entrada lá.

A turma de Criação, muito unida, geralmente almoçava junta, hábito hoje raro nas histéricas agências atuais. E todo dia, na hora do almoço, o mesmo(agradável) dilema – onde iremos?

Um diretor de arte, convidado a compartilhar da refeição, declinou do convite, dizendo estar esperando um cliente, "um japonês".

Sem saber onde iria êle almoçar com o "japonês", alguém sugeriu o "Cacciatore", e para lá foram em bando. Adentraram o estreito corredor do restaurante, e com espanto e embaraço, depararam numa das primeiras mesas com o diretor de arte, não com um japonês, mas com uma bela secretária da agencia.

O primeiro a entrar estancou, aparvalhado, mas agora era tarde, não havia como retornar, teria de sair tropeçando na fila que vinha atrás. Entraram, portanto, procurando sentar bem longe do rapaz do "japonês", que também não sabia onde enfiar a cara,com um sorriso amarelo.

E foi mau para todos, o rapaz pensando que, tendo ouvido seu convite á moça, tinham ido lá para gozá-lo, desmascarando-o.

"O japonês", furiosa, achando que ele havia feito uma armação para exibi-la; a turma absolutamente constrangida e sentindo-se culpada. Um desastre total.

O mau estar perdurou por vários meses, e pior, o termo "japonezar" ou "japonesada" pegou, sendo usado para designar encontros furtivos, almoços secretos. Hoje o pessoal das agências, para se falar ainda em "japonês", pede o insosso sushi de delivery em caixinha, que comem sozinhos, e quase ninguém se fala mais.

Belos tempos aqueles em que ocorriam as tais "japonesadas". Sayonara!