De repente, a esperança

Dizem que o verde é a cor da Esperança. Foi justamente assim que começou este caso. Estávamos colhendo verde, não para plantar maduro, mas para examinar uma folha de parreira que pendia de um muro na vizinhança. Bem na esquina da Rua California com a Rua Guararapes, no Brooklin Novo. Nosso caminho habitual, nas caminhadas pelo aprazível bairro.<br><br>Foi então que ele se aproximou com os olhinhos vivazes e perguntou se íamos plantar.<br>- “Não, uva não pega assim. É que vou fazer uma bandeja em formato desta folha”. Expliquei.<br><br>- “É para o Natal!”. Disse minha mulher.<br><br>E ele:<br>- “Mas o Natal está longe ainda. Acho que vocês são como eu, sempre antecipando as coisas. Afinal, tenho 93 anos, e não sei até quando vou viver…”.<br><br>Fiquei pasmo e disse:<br>- “Não está com jeito de quem vai morrer, 93 anos?! Difícilmente alguém lhe daria 80!”<br><br>Então o velhinho me contou um pouquinho da própria história:<br>-“Nasci em 1918. Advoguei por 71 anos e por 71 anos estou com minha esposa. Meus filhos, que já casaram e separaram várias vezes, dizem que sou um mau exemplo…”.<br><br>Era espantoso. O rosto, liso e corado, os olhos brilhantes, boa postura, baixo e troncudo. Ninguém lhe atribuiria tal idade. Aliás, conheço gente que nem chegou aos 60 e está longe dessa vitalidade!<br><br>E então continuou:<br>-“Pois é, advoguei durante tantos anos, e agora escrevo. Vocês gostam de ler?”.<br><br>Fiquei ainda mais interessado:<br>-“Sou também escritor, disse-lhe. Sobre quê está escrevendo?”.<br><br>-“Bom, não sei o que vocês acham… É contra a Igreja Católica!”<br><br>-“Por nós, tudo bem.”, dissemos.<br><br>-“Então vou deixar um livro na portaria para vocês. Moro naquele prédio, ali adiante…”.<br><br>Despedimo-nos e lá se foi ele, Rua Califórnia abaixo, com seu andar firme. Nenhum ajuda, nenhuma bengala, sequer um claudicar.<br><br>- “Passaremos lá amanhã, para ver se cumpriu sua promessa!”.<br><br>Então, é possível sim, mesmo com a vida problemática e agitada que levamos, chegar a uma idade provecta em boa forma física e mental! Ali estava a prova viva disso, meus caros e lamurientos colegas.<br><br>Ah, a Esperança…<br><br>Ele nascera no final da Primeira Grande Guerra, atravessara os loucos anos 20, a Grande Depressão, a Revolução Constitucionalista, a Segunda Guerra, a Revolução Cultural e a Contra Cultural, o fim do Comunismo que vira nascer, o Bug do Milênio e ali estava firme, aparentemente intacto.<br><br>Tudo para dar-nos uma lição, ó homens de pouca fé. 93 anos e com um jeito de quem ainda vai longe. A Esperança é mesmo a última que morre!<br><br>E-mail: [email protected]<br>