Recordações do Pacaembu II

Em 1964, iniciava sua carreira no futebol o jogador Rivelino. Eu sempre fui palmeirense, mas tinha o costume de assistir jogo de qualquer time. O que eu gostava mesmo era de assistir bom jogo. E Rivelino ainda era dos aspirantes do Corinthians. Num jogo de novembro de 1964, o Corinthianos iam jogar contra o grande Santos F. C, a sensação da década com Pelé e Cia. Rivelino ia jogar na preliminar, então fui bem cedo para poder ver o jogo sentado. Mas jogo do Corinthians, mesmo chegando cedo, a fila é do tamanho da grandeza do clube. E para não ficar na fila me lembrei do conselho de um amigo meu. Ele me disse que pulando o muro do estádio perto do ginásio, dava para entrar inclusive sem pagar o ingresso. Não tive duvida fui lá. E não é que ele tinha razão? Já tinha muita gente pulando o muro. Fui, na esteira deles. Só que quando pus os pés no chão o, cachorro do administrador do estádio foi pegar justamente eu. Era um pastor alemão, que a boca prendeu minha canela e ainda sobrava boca do cachorro. No desespero de tirar a perna da boca dele, eu a girava e ficou sangrando. Foi graças a uma pessoa que com um pedaço de pau o espantou. Indo o cão para cima dele. Ai eu pulei para a geral e lá fiquei. Mas o estádio já estava cheio. Na certa todos foram mais dedo para ver o Rivelino jogar. Fiquei de pé espremido na marquise o ponto mais alto do estádio. Estava tão vidrado no jogo e nos toques de bola de meia corinthiano que nem me lembrei da perna que sangrava e a calça já vermelha de sangue. Ao final os aspirantes do Corinthians ganhou dos aspirantes do Santos que tinha Zoca, irmão de Pele, por 6 a 2. Ai veio o jogo principal, O Santos detonou o Corinthians por 7 a 4. Como eu era anti Corinthiano, ria de canto a canto da boca. Meu riso só parou, quando a perna começou a doer. Na segunda feira fui trabalhar, mas a dor estava cada vez maior. Fui ao instituto Pasteur, na Avenida Paulista, e fui medicado. Estava apavorado por ter que tomar as 20 vacinas na barriga, coisa que qualquer um chorava mesmo estando numa bela tarde no circo. Mas o médico disse que eu tinha uma chance de não tomar as injeções. Eu tinha que fiscalizar o cão, sete dias seguidos. Caso o cachorro não ficasse louco estava eu estava livre delas. Foi me dito pelo médico que o cão só fica louco depois que morde uma pessoa. No caso de ser um cão bem cuidado pelo dono tomando as vacinas normais, não há o perigo de ele ficar louco. Ai tive que ir ao Pacaembu, para saber do administrador como estava aquele bonito cão alemão, marrom e amarelo. Para falar do fato, eu não sabia como começar, mas fui em frente. Senhor administrador. Sabe…Eu… Quer dizer… ele… Ou melhor…Nos… Sabe… Não é… pois..é, então…
Ele foi mais rápido: Já sei. Você pulou para dentro da minha casa, e o cachorro te pegou.
-É isso mesmo doutor. Desculpe-me, eu queria ver o Rivelino jogar. Juro que tinha grana para pagar o ingresso.
-Tudo bem garoto, isso acontece toda semana, Mas o que você quer? Rindo, ele me perguntou se eu queria indenização.
Não.O que isso! O médico quer saber se o cachorro não vai ficar louco.
– Pode ficar sossegado, ele é vacinado. Come na mesa comigo e minha mulher. E bastante dócil. E na verdade era mesmo. Pegou minha perna com muita educação. Eu é que me apavorei.