Faz muito tempo, mais de 30 anos, trabalhei na Av.Vieira de Carvalho. Foi uma passagem pitoresca, e de certo modo alterou todo rumo de minha vida. Era uma agência conservadora, mas o dono resolveu dar uma virada, e contratou um badalado e tresloucado diretor de criação. Eu era do tipo "certinho", e de repente estou num ambiente hippie, mais parecendo um filme de Fellini, um Fellini adoidado. Meu parceiro, um jovem redator de cabelos compridos e bolsa a tiracolo, havia sido despedido da agência anterior. Tinha sido achado dormindo sob a mesa,embalado nos sonhos da marijuana. Seu apelido, aliás, era "Cannabis". O novo chefe, como disse, muito famoso no meio, era astuto, megalomaníaco e narcisista, e tudo que fazia era em prol de sua divulgação pessoal. Sempre procuro aprender e tirar o melhor de um situação, por complicada que seja. Depois, mesmo com estes doidos ao meu redor, confiava em meu talento. Pensando melhor agora, eu, como o mais pé no chão da turma, era um mastro de amarração daquela nau errante. Assim, diverti-me muito nesse período, fiz bons e premiados trabalhos – dos quais o chefe sempre reivindicava a autoria. Era um admirável mundo novo para mim, novato como diretor de arte e ainda pouco experiente nos chamados "fatos da vida". Eu achava, e ainda acho, muito agradável aquela região do Lgo.do Arouche. Éramos cercados de bons restaurantes, como o Rubayat, onde, como conta da firma, íamos frequentemente; o velho Carlino, quase debaixo da agência; o Almanara, do outro lado da rua. Uma vez, após termos virado a noite toda numa campanha, ao meio dia coloquei os trabalhos na mesa do patrão e decretei encerrado o expediente. Fomos ao Rubayat e iniciamos a função com ostras no gelo e uísque, e isto foi só o começo. Quando apresentei a nota ao neurótico chefe – vamos chamá-lo de "Naum" – ele quase teve um dos seus famosos ataques de fúria. Mas nós trabalhamos como mouros, e merecemos, disse eu. – "Tá bom, mas como vou explicar todos esses uísques ao dono?" Respondi que, segundo tinha ouvido, o patrão tinha orgulho de que seu pessoal fosse ao Rubayat, e se tratasse bem. -"Bom,disse ele, deixa a nota aí, que depois eu falo com ele." E enfiou-a na gaveta.<br><br>Um ano depois, quando"Naum" havia saído da firma, deixando-a quase à falência, depois de perder muitas de suas melhores contas, abri sua gaveta, e a nota de despesa continuava lá. Jamais foi paga. Mas haviam outros restaurantes notáveis, o bom e barato Gato Que Ri, que continua onde sempre esteve; o macrobiótico Arroz de Ouro e o venerável Panamericano, ao fundo do largo, bem defronte à estátua em bronze de Augusto, com seu braço apontando para o infinito. Comia-se muito bem ali.Tinham pratos de frutos do mar, polvo, lagosta, e era tradicional uma carne seca desfiada com pirão. Na Happy Hour serviam bolinhos de queijo, para acompanhar a bebida, gratuitamente. Foi uma grande perda seu fechamento,e não sei hoje o que funciona no local. Por fim, o charmoso La Casserole, onde estive uma vez. Ainda nesta agência assisti ao terrível incêndio do Andraus, bem no dia de meu aniversário. No final "Naum" nem fazia mais esforço para trabalhar. Ao contrário, insistia para que o acompanhássemos ao Paribar, na Pça. D.José Gaspar, e ficava ali bebericando todo o resto da tarde, pois seu polpudo salário agora atrasava. O meu, consideravelmente menor, era pago religiosamente. Não ser vedete tem também suas vantagens. Pois é. Tive na Vieira de Carvalho momentos de angústia, pânico, mas também de diversão, novas visões do mundo, romances, grandes tristezas e muitas alegrias. E quando tive uma proposta e saí de lá, era uma pessoa diferente, mais preparada para enfrentar as durezas da vida. Dois anos lá, e então recomeçar, recomeçar, como sempre.