O Baile dos namorados

Era dia de Santo Antonio, um sábado 13 de Junho de 1953. O dia tinha sido lindo, O sol de inverno que quando esquenta arde a pele da gente. Veio a noite, os balões já não mostravam mais suas variadas cores apenas o facho de fogo de suas tochas. Na rua Florêncio de Abreu 259 o Elite 28 estava a espera de seus pés de valsa. O Elite era um salão de baile renomado, e aquele dia era dia de Santo Antonio, o Santo Casamenteiro. Seria um dia que iria ficar na retina de muitas moçoilas, quem sabe um belo par para o resto de sua vida. O baile teve seu inicio como sempre. Voltou-se o nosso amor, Valsa lenta: Boleros, Fox Trote, Samba Canção, enfim musica lenta para que rostos ficassem colados. Mas, de repente, um dos músicos sobressaiu-se a todos os outros. Sua desafinação foi tanta que até os dançarinos olharam para ele. E, logo, descobriu-se o motivo: uma fumaça começou a surgir vinda da loja de baixo, a Votex de Tecidos, do complexo Votorantim. Que ficava na parte de baixo. O fogo consumia rapidamente o salão. Todos corriam em direção à estreita escada que, como o assoalho, era de madeira. Não demorou muito para tudo ruir. Várias pessoas morreram asfixiadas pela fumaça ou pisoteadas e outras, porque se atiraram pelas janelas. Os bombeiros logo chegaram, o salvamento começou bem rápido, mas o fogo já tomava conta de todo salão. O desespero era tanto que até os bombeiros, experientes nesse tipo de situação, choravam como crianças. Um deles lamentava a morte de uma moça de blusa azul que fugiu de suas mãos e se estatelou nos paralelepípedos da Florêncio de Abreu. Embaixo, na calçada defronte ao salão, jazia uma extensa fila de corpos perfilados, inertes, à espera de parentes para identificá-los. Às duas horas da madrugada, um cabo do corpo de bombeiros soluçava convulsivamente ao ver o que tinha restado do seu amigo e compadre, o cabo Amaral, no meio dos mortos. Ele e Amaral haviam entrado no meio do fogo para salvar vidas, contava ele com os olhos vermelhos de tanto chorar e continuava, contar:
– Ao voltarmos para orientar os companheiros sobre a situação, como sou mais magro que ele, consegui esgueirar-me para fora. Ele ficou ali e foi esmagado pelos pés da massa alucinada. Agora, jaz no meio daqueles que ele tanto queria salvar… a vida reserva-nos coisas muito tristes… Mas o mais triste estava por vir.
Um negro magro e espigado, miliciano da força pública, trabalhou a noite toda numa sinistra tarefa que não conhecia: a de salvar vidas e desembaraçar os mortos que jaziam entrelaçados no piso cheio de água, fumaça e fuligem. Cerca das três horas da madrugada, seus nervos estalaram e todos testemunharam a mais um pavoroso espetáculo de horror: o enlouquecimento de um homem em fúria! De repente, ele passou a agredir brutalmente, às cegas, as pessoas que estavam por perto. Ele gritava, numa voz inumana, aos que tentavam acalmá-lo:
– Não tenho medo de nada… sou gaúcho e muito homem! Não tenho medo de nada! Me larguem, seus bandidos! Eu não tenho medo de nada….
Coitado! Foi preciso o uso de cordas para tirá-lo do Elite 28…
Enfim em meio a tantas historias, sempre tem uma bastante triste, é a vida.
Texto e pesquisa: Mário Lopomo