São Paulino desde criancinha

Em outubro de 1943 o Pacaembu, hoje Paulo Machado de Carvalho, foi palco de mais um Choque Rei, metáfora criada por Thomaz Malzoni, conhecido como Olimpicus, cronista da Gazeta Esportiva, para o confronto entre São Paulo FC X SE Palmeiras. Além do Choque Rei, ele criou outras como "O Majestoso" para o confronto entre São Paulo e Corinthians e "Clássico para o confronto entre Palmeiras e Corinthians". O resultado daquele Choque Rei foi 0X0, mas suficiente para dar o titulo de campeão daquele ano ao São Paulo.

Seu Orlando, meu querido pai, São Paulino roxo vibrou com o jogo e com o titulo. Morávamos numa vilinha de casas na Rua Tabajaras, hoje Nhambiquaras, em Indianópolis. Terminado o jogo ele desembestou porta a fora e começou a zoar os vizinhos, principalmente palmeirenses e corintianos. Depois tomou um banho e, como mandava o "dress code" da época, vestiu seu velho terno azul marinho, camisa branca, gravata vermelha e sapatos pretos, por coincidência (seria?) as cores do São Paulo, e lá se foi Avenida Jandira abaixo em direção ao balão do bonde.

Todo pimpão ia conversando com outros passageiros sobre a façanha do São Paulo, tudo na maior harmonia, porque naquela época não havia o xenofobismo clubistico como há hoje. Raramente se brigava por causa de futebol, uma ou outra escaramuça logo apartada pela turma do deixa disso. Era comum ir ao Pacaembu assistirem jogo juntos. Grupos de amigos com a maior diversidade de clubes. O comportamento era mais civilizado.

Ao chegar à Praça João Mendes, ponto final do bonde, meu pai passou pela Praça da Sé, desceu a Rua Boa Vista até a São Bento e seguiu até o Largo de São Bento, daí tomou o Viaduto Santa Ifigênia até a Praça Cásper Líbero, onde funcionava a sede da Gazeta Esportiva. Lá esperou alguns momentos em comemoração com outros São Paulinos a espera do exemplar do domingo pós jogo, como se dizia, vinha quentinho como pão de padaria. Comprou seu exemplar e abriu na folha do pôster com a foto do campeão e curtiu aquele momento glorioso de seu time. Dobrou o jornal cuidadosamente, colocou-o no bolso do paletó e fez o trajeto de volta para casa. Ao subir a Jandira continuou zoando tudo quanto era Palmeirense e Corintiano. Quando entrou em casa sob os olhares atônitos de minha mãe pegou um martelo e quatro tachinhas, muito usadas pelos sapateiros da época, e pregou na parede da sala o pôster do campeão. Minha mãe ainda ralhou com ele em seu sotaque italianado:

– Ma, Orlando que me tá fazendo, homem de Deus! Vai me furar a parede toda!

Ele a tranquilizou:

– Calma, Luiza, vou deixar uns dias, depois eu tiro e tapo os buracos das tachinhas.

Eu presencie a cena e em meus seis aninhos olhei admirado para o pôster. Como eu já era semi alfabetizado pelo tempo em que eu passara na escola maternal, comecei a balbuciar a escalação daquele glorioso time do São Paulo. Com um pouco de dificuldade e ajuda da minha mãe fui lendo a legenda:

– King, Piolim e Virgilio, Zezé Procópio, Zarzur e Noronha, Luisinho, Sastre, Leonidas, Remo e Pardal.

Tantas vezes li durante o tempo que meu pai deixou o pôster pregado que decorei e até hoje sei de cor e salteado, como mostrei acima. Foi assim que nasceu minha paixão pelo tricolor paulista, desde criancinha, mesmo.

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