O João Carmelo estava ali parado na esquina das Ruas Venâncio Aires com a Rua Caraíbas, próximo do campo de futebol da Sociedade Esportiva Palmeiras no miolo do bairro de Vila Pompéia. Estava distraído, olhando para o jogo de pião que a molecada havia depositado no meio do circulo que tinha sido riscado no chão de terra batida, defronte do portão da casa do Zeca Piolho.<br><br>Não viu e nem ouviu, ou fingiu que não ouviu, quando a mãe, dona Assumpta, desceu as escadas do pequeno sobrado e parou no portãozinho de entrada e chamou:<br>- Carmelo, já para dentro. Está na hora de seu pai chegar do serviço e não quero que ele te encontre todo sujo de terra.<br><br>O moleque fingiu que não ouviu, ou fez ouvido de mercador. Disfarçou, sentou no meio fio da calçada e com a fieira de cordonê numa das mãos, se preparava para lançar o pião de madeira sobre os outros que estavam dentro do círculo para arrebatar quantos deles pudesse pegar. Aquilo era um jogo muito comum entre a molecada da rua. Porém, a mãe novamente insistiu:<br>- Carmelo já pra dentro, moleque! Você não está me ouvindo, seu peste.<br>O Rivaldo, mais conhecido pelo apelido de Foca, um moleque mais velho do que o Carmelo e que estava mais perto dele, deu-lhe um coque na cabeça e disse:<br>- Ô menino, não está ouvindo tua mãe te chamar?<br><br>O moleque continuou sentado, fingindo que não era com ele. A mãe deu um grito. Grito materno, até surdo escuta. A mãe foi se achegando devagarzinho com a vassoura de fibra amarela nas mãos, pronta para dar-lhes umas solenes vassouradas no traseiro.<br><br>O Carmelo era rápido. Largou a fieira, o pião de madeira no chão e se escafedeu. Chispou rasteiro correndo pela calçada, enquanto a mãe tentava alcançá-lo. Tudo inútil. O moleque era ligeiro demais para a boa senhora. O Carmelo deu a volta no quarteirão, desceu pela Rua Diana, entrou na Rua Turiassú, contornou a esquina, subiu pela Rua Caraíbas e entrou correndo no sobradinho, antes que a mãe pudesse alcançá-lo.<br><br>Quando a mãe chegou, ele já tinha acabado de tomar banho e estava vestindo o pijama listrado de dormir. A mãe ralhou com ele. Fez um sermão da montanha. Disse-lhe que daquele jeito como estava, não poderia continuar.<br><br>O Carmelo estava cada vez mais desobediente. Já tinha passado da conta. Na escola não ia muito bem. As notas variavam de matéria para matéria. Leitura 3,5; aritmética, 4,5; história do Brasil, 3,5; geografia, 1,5; comportamento zero; educação moral e cívica 5. Realmente, o Carmelo estava por um fio. Com certeza se continuasse assim, seria reprovado no final do ano.<br><br>Quando ele não estava na rua, estava dentro do Palmeiras. Não era sócio e nem visitante, era apenas penetra. Para entrar, usava de duas artimanhas. Uma delas era escalar o muro de tijolos, depois de atravessar o pequeno córrego que margeava o muro do Palestra Itália e com uma tampinha de cerveja, a molecada tinha feito uma escadinha riscando nas reentrâncias dos tijolos um pequeno sulco que coubesse apenas um pé e uma mão. E a escalada era rápida. Num instante e pronto. Lá estava ele dentro do clube.<br><br>Outra opção era quando o porteiro, um homem mal encarado, estava vigilante com uma vara de marmelo na mão observando atentamente os dois lados da rua e o muro, a caça da molecada. Teria para tanto, se enfiar por dentro da tubulação de águas servidas que saia da pista de atletismo e desembocava num bueiro fundo num pedaço já canalizado da Rua Turiassú.<br><br>O trajeto dentro do tubo era um tanto arriscado. O diâmetro da passagem dava apenas para um moleque de tamanho pequeno. O comprimento do tubo era de aproximadamente 50 metros. Era necessário rezar para que no momento da travessia não chovesse, senão seria fatalmente arrastado pela correnteza e morreria afogado. Mas felizmente nada disso aconteceu.<br><br>Já dentro do clube, o Carmelo tinha sido escolhido pelo Tamanqueiro, um mulato generoso que comandava o time da molecada, o infantil do Palmeiras.<br><br>O Carmelo jogava na posição de centro avante. Não era dos melhores, porém, conseguia com ligeireza se destacar como atacante. Tinha bom controle da bola. Mas quase sempre era perseguido pelos zagueiros que procuravam barrar sua entrada pelo miolo da área; às vezes por ambas as pontas, dando-lhes solenes botinadas.<br><br>O Wilson Biriba, palmeirense roxo, que jogava como zagueiro adversário, costumava dar combate as estocadas rápidas do Carmelo.<br>Quase sempre lhe passava o pé derrubando-o violentamente. Numa dessas estocadas, o pau comeu. Apesar de amigos, os dois se estranharam. Socos e pontapés voavam por todos os lados. O Carmelo era bom de briga.<br><br>Num descuido, o Biriba levou uma rasteira e caiu. O Carmelo chutou lhe o lado do baço, deu um soco no estômago, e o moleque se contorceu em dores e começou a chorar. No desespero, o Carmelo saiu correndo apavorado, pensando que tinha matado o amigo. Galgou rapidamente o muro e saltou do alto para a beirada do córrego e foi para casa.<br><br>Naquela noite, não conseguiu dormir direito. Mexeu-se na cama de um lado para outro, cheio de preocupação. Afinal, o Wilson Biriba morava na mesma rua, cinco casas depois da dele e o pior, os dois eram amicíssimos. A mãe iria esfolá-lo vivo quando soubesse do acontecido.<br><br>Felizmente nada aconteceu. Apenas uma briga de dois moleques desajustados. Depois de algum tempo, os dois voltaram às boas.<br><br>Lá pelos idos de 1949, depois de uma chuva do dia anterior, quando numa tarde de sol ardido, o Carmelo sumiu de casa. Resolveu que devia se refrescar numa lagoa suja lá para os lados do bairro do Limão.<br><br>Naquela época, não havia piscinas dentro do clube. Combinou com o Fernando, mais conhecido por Nanico, um moleque baixo, forte, atarracado, também vizinho da rua que iriam nadar na várzea do Tiete.<br><br>O caminho até lá era longo. Tinham que seguir rente ao muro das Indústrias Reunidas Matarazzo na Água Branca, até um enorme túbulo de cimento armado onde corria por cima em paralelo os trilhos dos trens da antiga Estrada de Ferro Santos a Jundiaí e de Sorocaba. Quando chegaram, depois de passarem debaixo do tubo, viram que o caminho, uma trilha no meio do capim bravo, era um espelho só d'água que a chuva do dia anterior tinha deixado na várzea do Tiete.<br><br>De início se juntou um moleque escurinho que eles não conheciam. O menino estranho ia à frente com uma vara de taquara tateando o caminho. À medida que deslizavam pela água suja, o terreno foi afundando. O mulatinho de baixa estatura estava com a água abaixo do pescoço; o Nanico, menor ainda, a água estava quase na altura do nariz; o Carmelo, um pouco mais alto do que os dois, a água batia-lhe na altura dos ombros.<br><br>Num repente, o mulatinho caiu num buraco e afundou. Quis a providência, que o Nanico, vindo logo atrás do moleque num gesto rápido conseguiu agarrá-lo pelo pescoço e puxou-o para cima. O susto foi grande. Finalmente depois de zigzarearem pelo caminho das águas, chegaram ao fim num terreno plano, seco, nas cercanias do bairro do Limão.<br><br>A lagoa era logo ali. Uma água imunda que a chuva do dia anterior tinha aumentado de volume no meio da várzea do Limão. A molecada chafurdava naquele lodaçal todos pelados, pulavam do alto do barranco num mergulho perigoso. Havia na lagoa muitos poços escondidos. Era uma verdadeira armadilha para aqueles incautos moleques.<br><br>O Carmelo também estava se divertindo naquela sujeira toda. De repente, ele perdeu o pé de apoio dentro da lagoa e começou afundar. Desgraçadamente cairá num poço profundo. Por um instante, ele desapareceu. Na queda da descida, quis a providencia que o pé dele encontrasse uma saliência na lateral do poço e conseguiu dar um solavanco com o pé esquerdo e acabou saindo, voltando à tona.<br><br>Depois deste susto, o jeito agora era se vestir e voltar para casa. Como fazer? Não iriam mais se arriscar pela trilha encoberta de água. Iriam até o pátio da estação da Barra Funda. O caminho era longo, porém, mais seguro. Já no pátio de manobras da ferrovia, descobriram maravilhados vários vagões de carga com as portas abertas, cheios de melancias, cachos de bananas, caixotes de abacaxis, laranjas, frutas e mais frutas tudo ali, a disposição dos dois moleques.<br><br>O trabalho foi deveras fácil. O Nanico pegou dois belos abacaxis, algumas laranjas, o tanto quanto pode carregar. O Carmelo também não se fez de rogado: apanhou um cacho de banana nanica, um suculento abacaxi, e mais algumas laranjas que pudesse levar e se puseram a caminho de volta.<br><br>Ao chegar, o pai do Carmelo estava esperando furioso com a cinta na mão. Nem bem entrou em casa, não conseguindo ainda se desvencilhar das frutas, levou uma inesquecível surra de cinta. A mãe, coitada, estava desesperada. O moleque havia sumido da rua às duas horas da tarde, e até àquela hora, seis e meia da noite, não havia ainda chegado em casa. Depois de tudo, só Deus mesmo para protegê-los daquela irresponsável aventura.<br><br>O Carmelo tinha cabeça de pudim. Um miolo mole, um pentelho de moleque como tantos outros, no bairro de Vila Pompéia.<br><br>E-mail: [email protected]