Aquele era o limite. Chegamos até ali e estacamos.
– No pasarán!
Não era possível continuar, a fronteira estava ali. Invisível, pois a avenida parecia continuar normalmente mais à frente, até a praça. A Catedral estava há uma quadra de distância, mas tal distância era intransponível.
– No, no pasarán!
Tínhamos ido à Liberdade. Domingo, deixei o carro na Galvão Bueno, perto da Tamandaré. Bem à mão. Por ali se estaciona e se sai com maior facilidade. Dali até a Praça da Liberdade, e sua animada feira, uma pequena caminhada pela velha Galvão.
Nada de especial naquele domingo. Nem festa de Ano Novo Chinês, com suas sufocantes multidões seguindo, corações aos pulos, os dragões e leões acrobáticos. Nem Tanabata Matsuri, quando elaborados balões de papel e fitinhas coloridas são presas às árvores, cobertas de pedidos e orações. Nem aniversário do Buda, com suas danças rituais, sob o som de imensos tambores.
Um domingo comum da Liberdade, e nossa missão era bem corriqueira: comprar massas e macarrões, guiozás e gelatinas orientais. Pode-se comprar isto em outros lugares, mas ali são melhores, mais típicos e mais baratos.
Antes, passamos pela feirinha, com seus já conhecidos produtos padronizados. E seguimos em frente. Pra quê? Pretendia dar uma olhada no conjunto estatuàrio "Contando a Féria", um engraxate e um jornaleiro abraçados e eternizados na Pça João Mendes, tão estimados por nosso amigo Wilson Natale. Não conheço o conjunto pessoalmente, e tem tudo a ver com meu gosto por escultura.
Pretendia, mas não chegaria lá. Seguindo a Avenida da Liberdade, tivemos o primeiro aviso. Quase na esquina da Rua da Glória, uma magnífica Mercedes C-180 prateada, estacionada. E, muito, muito estranho, com o vidro aberto, no qual se debruçava um personagem mal ajambrado e mal encarado. Pediria dinheiro? Jogada de drogas? Nunca saberemos. Passamos por eles, e ali estava a fronteira.
Poucos metros mais e iríamos ver as estátuas dos meninos pobres, mas já uma miséria muito maior se estendia ali, forrando as calçadas. Minha esposa declarou:
– Por ali eu não passo.
Tentei dar uma desviada, mas na rota outros miseráveis tinham estendido suas tendas, obstruindo a passagem.
E isto era só o começo, pelo que vislumbramos mais adiante.
– No, no pasarán!
E desistimos. Engraxate e jornaleiro, vocês ficaram para outra vez. Vocês são ricos e felizes, na bronzea imobilidade de seus olhos cegos, sem ver a que foi reduzido o centro da cidade.
Voltamos e, de rebote, pegamos ainda pela frente o indivíduo que estivera falando com o dono da Mercedes. Veio direto para mim, com seu passo trançado de urubu malandro. Desguiei, com um seco.
– Não tenho, companheiro.
Ouvi-o ainda engrolar qualquer coisa, acho que algo como: “Não era dinheiro…”.
Que seria, então? Queria discutir "O Capital" de Marx e sua influência urbanística em São Paulo? Ou as implicações do complexo de Édipo na análise freudiana? Não sei, nem quero saber.
Mas juro que um dia, talvez de semana, volto para visitar as estátuas. Elas vêm de dias melhores, já esperaram tanto tempo que um pouco mais não lhes fará mal; que esperem, uma hora a fronteira estará franqueada ao cidadão comum, marido exemplar e pai amantíssimo, cumpridor de seus deveres para com a Nação. Que receberá, finalmente, como na historinha de Kafka, autorização para passar.
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