Uma segunda-feira movimentada

O ônibus circular 01 deixou-me em frente ao prédio da Reitoria da USP. Normalmente eu atravessaria a rua, entraria pela porta da frente, cumprimentaria o Lazinho, porteiro uniformisado da Reitoria, atravessaria o hall dos elevadores e me dirigiria até uma saída para o pátio.

A ECA, onde eu trabalhava, ficava (fica) na outra ponta do pátio e aquele era um caminho que fazíamos todos os dias, eu e outros funcionários…

Como eu dizia, após descer do ônibus, fui em direção à porta principal que, estranhamente, estava fechada. Com a mão em pala sobre os olhos, procurei olhar através do vidro. Não vi ninguém conhecido, nem o Lazinho, nem o China, operador de mimeógrafo, que costumava fazer hora no saguão e falar uns "picilones" para as meninas que chegavam para trabalhar.

Vi um monte de gente, alguns militares fardados, outros à paisana, militares escachados devido à postura, os queixos empinados. Uma lona preta cobria de alto a baixo a parede dos fundos do saguão onde ficavam os elevadores e o chão estava coberto de destroços, pedaços do granito polido, reboco, a porta metálica de um elevador envergada como se fosse um parêntese.

Um cutucão fortíssimo em minhas costas me atirou de cara contra o vidro da porta. Virei-me já imaginando o pior e não deu outra: duas submetralhadoras apontadas para mim e um terceiro com um cassetete de madeira na mão:
– O que o senhor está fazendo aqui? Perdeu alguma coisa lá dentro?
– Eu trabalho aqui – o coração disparado, as pernas tremendo, a voz saindo com dificuldade.
– Aqui na Reitoria?
– Não, na ECA, no prédio ali atrás…
– Eu sei onde é a ECA, cidadão! "Tá" me chamando de burro? "Tá procurando encrenca?
– Não! Eu só respondi a pergunta que você…
– Você, uma pinóia… Quando falar comigo é “Senhor"! Deixa ver seu gibí!
– Gibi?
– É… gibí… Carteira de Trabalho… documento… babilaque…
– Eu sou funcionário público, uso uma funcional…
– Na mão, na mão… Deixa eu ver…

Vou encurtar a história: depois de só faltar cheirar minha funcional, o milico me liberou com as seguintes recomendações:
– Volta pra sua casa, hoje ninguém trabalha aqui, na ECA, no B9, na Veterinária e na Odonto… Pra casa, “xispa” daqui…

Mas não fui direto pra casa. Dois funcionários meus que trabalharam à noite estavam presos dentro do prédio da ECA. Dei a volta, passei pelo estacionamento e cheguei ao prédio. Não vi ninguém, nenhum guarda, nenhuma sentinela, apenas meus dois funcionários sentadinhos atrás do balcão da portaria.

Em poucas palavras, através de uma janela, eles me explicaram o que tinha acontecido:
– "Seu" Inácio, explodiram o elevador do Reitor (na época era o Miguel Reali). Alguém no térreo chamou o elevador do homem, de brincadeira, e tinha uma bomba. Quando chegou embaixo, ela explodiu. O elevador subiu os seis andares pelo poço, arrebentou a laje e a caixa d'água e tudo isso caiu em cima do caminhão do curso de Rádio e TV. Acabou com o caminhão…
– Bem, o que os caras falaram com vocês?
– Nada, mandaram a gente ficar de boca fechada… Dizem que vão mandar gente deles pra ficar hoje aqui e ao meio dia a gente pode ir embora…
– Bem, eu vou ligar pra Associação pra saber qual é a posição deles.
– Ligar?
– É, ligar. Essa hora a sede deve estar cercada, vigiada. Melhor me
arriscar num telefone grampeado do que ir fazer um passeio no Ibirapuera… Vocês fiquem com Deus, vai dar tudo certo…
– Avisa lá em casa, "seu" Inácio, por favor, meu vizinho tem telefone, o número é xx-xxxx.
– “Ta”! Eu aviso…

Essas coisas aconteciam em nosso país, em nossa cidade, durante o que se convencionou chamar de "os anos de chumbo". Muitas carreiras foram interrompidas, muita gente desapareceu, muita gente saiu de casa para morrer…

Chegou uma ocasião em que eu mesmo corri perigo. Foi quando me demiti e voltei para a Enfermagem. Minha primeira profissão… Não sei se continuo a falar sobre o assunto…

E-mail: [email protected]