Sou uma pessoa de sorte. Sempre morei em bairros centrais e com fácil acesso ao meu local de trabalho. Durante muito tempo utilizei meu carro, um Fusca, para fazer esse percurso, já que da Vila Mariana, onde vivi por mais de 20 anos, à Vila Nova Conceição, a distância é relativamente pequena.
Quando me casei, fui morar na Zona Oeste, mas o local de trabalho não mudou. À medida que fui ficando mais velho e, por consequência, mais neurótico, passei a utilizar o ônibus como transporte. E a linha que utilizo há mais de 25 anos é aquela que mencionei no título desta narrativa.
Servida atualmente por duas empresas conjuntas, a Gato Preto e a Transppass, só tem carros grandes de motor traseiro, Volkswagen 17-260, Mercedes-Benz O-500 e até mesmo alguns Scania K-270 de 3 eixos.
Em dias normais são cerca de 40 carros na linha. Mesmo assim está sempre cheio.
Aprendi a conhecer de vista vários passageiros habituais. Sei onde tomam o ônibus e sei onde costumam descer e quando estou em pé, procuro ficar sempre perto de um desses "conhecidos" já sentados, para garantir um assento.
No meu horário viajam muitas mulheres, maioria de empregadas domésticas, moradoras em bairros distantes da zona noroeste, que já estão na sua segunda ou terceira condução para chegar ao trabalho. As que conseguem sentar aproveitam para dormir, já que saíram de casa lá pelas cinco da madrugada, ou até antes disso.
Há poucos dias, sentado lá na frente, ouvi um homem falando alto na parte traseira. Primeiro pensei que ele estava conversando com alguém, mas na verdade ele estava tendo o seu "dia de fúria" e estava desabafando. Tinha tomado o ônibus no Alto de Pinheiros e 40 minutos depois e menos de 2 km percorridos, ainda estávamos cruzando a Av. Rebouças. O tempo estava chuvoso e era o dia do reinício das aulas. O trânsito estava caótico. Dizia ele que aquilo era um absurdo, o patrão dele era um sujeito incompreensivo, dizia que era melhor ficar desempregado, em casa, a ter que viver daquele jeito.
Ninguém tomou conhecimento do seu desabafo, mas assim que o homem desceu, na Avenida Faria Lima, foi uma explosão de gargalhadas lá na parte traseira. Covardes! Eu não achei a menor graça. O homem tinha razão e teve a coragem de colocar para fora o que estava sentindo. Nem cheguei a ver o tal homem, eu estava lá na frente.
São Paulo, em outros tempos, já foi uma cidade que praticamente tinha de tudo a oferecer para quem aqui chegasse. Hoje a história é bem diferente. Quantas pessoas por dia devem se sentir como aquele homem, seja no volante de um carro, seja dentro de um coletivo? Investiram muito pouco em transporte ferroviário: trens e metrô, esses sim transportes eficientes e de qualidade.
A "São Paulo Minha Cidade" que me traz alegrias é aquela das histórias que leio aqui no site e que tive o prazer de vivenciar em tempos que já se foram.
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