Hoje, terça-feira de Carnaval, abro a minha janela e vejo a rua deserta, nenhum bloco, nenhuma turma de crianças fantasiadas, que tristeza!
A cidade semi-vazia, o trânsito está bom demais, fecho os meus olhos e meus pensamentos me transportam para um passado distante, lá na Rua Agostinho Gomes… Nossa turminha se reunia nos dias de carnaval, as meninas vestiam suas fantasias geralmente feitas em casa pelas mamães; os meninos trajavam camisas coloridas; os chapéus eram feitos com cartolina colorida; saquinhos com confete e rolos de serpentina eram nossas "armas" para a batalha do carnaval…
Às vezes alguém vinha com um lança-perfume Colombina ou Rhodouro. A brincadeira mais preferida era jogar "Sangue de Diabo" na camisa dos vizinhos, brincadeira sadia!
Ainda ecoam em meus ouvidos as marchinhas da época: "Alerta, alerta, vamos fazer revolução, nossa trincheira vamos ter mulata, na avenida São João". Carlos Galhardo gravara: "Depois do carnaval de 35 que passou, ninguém mais do teu nome se lembrou, lourinha, lourinha, este ano novamente tu serás rainha". A dupla Joel e Gaucho entoava "Se você fosse sincera, ô ô ô Aurora, veja só que bom que era, ô ô Ô Aurora".
Já os Anjos do Inferno interpretavam: "Nós, nós, os carecas, com as mulheres somos maiorais, mas na hora do aperto, é dos carecas que elas gostam mais". Linda Batista interpretava; "Vamos lá que hoje é de graça no boteco do José, entra homem, entra menino, entra velho e entra mulher, é só dizer que é vascaino e é amigo do Lelé".
Lamartine Babo compôs: "Lourinha, lourinha, dos olhos claros de cristal, este ano em vez da moreninha tu será rainha do meu carnaval". Carmen Miranda cantava: "Como vai você, vou navegando, vou temperando, prá baixo todo santo ajuda, prá cima é que coisa muda". Gilberto Alves cantava: "A vida de casado é boa, mas vida de solteiro é melhor, solteiro vai aonde quer, casado tem que levar a mulher".
A cantora não me lembro, mas havia ainda: "Todo mundo diz que sofre, sofre e sofre neste mundo, mas a mulher do leiteiro sofre mais, ela lava, passa, corta e controla a freguesia, e ainda lava garrafa vazia"…
Alguém bate à porta. É o vizinho que vem pedir ajuda para resolver um problema hidráulico e me traz novamente para a realidade, mas os velhos carnavais permanecerão para sempre em minha memória.
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