Carnaval sem dinheiro

Os anos 60 foram especiais para mim, principalmente relacionados aos festejos do Carnaval. Os melhores bailes da zona sul de São Paulo eram realizados no Banespa, Kolping (Clube Alemão de Piraquara), Babenberg (Clube Austríaco), Clube Inglês (Represa de Guarapiranga), Santa Mônica (após a balsa do Bororé) e no Clube do Castelo em Interlagos.

Eu não tinha dinheiro para comprar ingressos dos clubes para participar das festas do Rei Momo. A grande vontade de brincar, encontrar a turma e paquerar superavam qualquer dificuldade.

A primeira tentativa era "enrolar" o porteiro com qualquer desculpa para entrar. Confesso que teve como resultado prático quase nulo. Não restava outra alternativa do que pular o muro. Estudava a melhor forma e momento de praticar a ação e tive sucesso algumas vezes. Ruim era ser pego e levar alguns pescoções e broncas por parte dos seguranças. O pior era ser visto por alguma menina conhecida e passar aquela vergonha.

Aperfeiçoei minhas técnicas, e batia na porta de vizinhos do clube e, com uma boa desculpa, pedia autorização para pular o muro. Lembro que num dos bailes do Kolping, fui com uma turma e o proprietário (por coincidência tinha estudado na mesma escola que a nossa), além de emprestar uma escada, ficava olhando da janela do sobrado, informando a hora certa do próximo pular para dentro.

No Inglês, um colega de classe que era sócio do clube me levou à noite de barco, cheguei com os sapatos encharcados de água e barro no salão, o que me custou boas bolhas nos calcanhares após a folia.

O último "pindura" que dei, entrei escondido no porta-malas de um Chevrolet, foi um sufoco, mas valeu.

Meu irmão caçula era amigo de um dos integrantes da banda do Banespa, e entrei acompanhado de mais alguns "bicões" no clube, horas antes do início do baile, carregando instrumentos musicais. O porteiro olhou desconfiado e comentou nunca ter visto uma banda tão grande.

Anos mais tarde, já com emprego e dinheiro para comprar os ingressos, pareceu que o Carnaval perdia seus encantos. A moda que se iniciava era pular no Porchat e no Inglês de Santos ou curtir uma praia.

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