Passei minha infância quase toda em residências sem quintal. Ora foi um sobrado sem jardim, ora um apartamento sem o que hoje denominamos área verde; mas fui contemplada com um quintal enorme na casa de minha avó materna, e, para arrematar, ficava em frente ao grande jardim Floriano Peixoto, em Santo Amaro.
Lembro que, ao chegarmos, quase sempre aos domingos, pela hora do almoço, eu e meu irmão logo descíamos para aquele espaço imenso, todo ao nosso dispor a ser explorado. Neste espaço, além do grande sobrado em que morava a matriarca, já quase inválida, estava também a casa de um de seus filhos, meu tio Rubens e minha tia Zula, e eram com minhas primas Guacira e Guaciara que dividíamos as traquinagens que vivenciávamos durante todo o dia.
Meu tio, um artista nato, certa vez construiu uma casinha, em seu quintal, para as filhas. Era tão perfeita para aquela época, que até água saia da torneirinha da mini-pia. Lembro como ficávamos horas entretidos na brincadeira, a prepararmos comidinhas para nossas bonecas ou transformarmos nossos irmãos menores em nossos filhos.
Não havia balanço, gangorra, piscina, mas aquela enorme caixa d'água invertida se transformava num belo palco dos nossos teatrinhos. Interrompíamos apenas para o almoço e lanche da tarde. Lembro que o sabor das refeições era forte, pois minha tia gostava de preparar toda a comida com banha de porco. Seu feijão até hoje tem espaço cativo na minha memória seletiva e o café com leite da tarde posso dizer que também, pois nunca mais provei nada igual; apesar de que hoje, por recomendação médica, tal mistura foi eliminada de minha dieta.
O pão crocante com manteiga Aviação ou às vezes uma barra de manteiga, sem sal, comprada na feira e conservada em tigela com água, fazia a alegria da criançada. Não precisávamos de mais nada, nem geléia, iogurtes ou cereais, apenas uma caneca de café com leite e um pão com manteiga já nos bastava.
Havia também duas famílias que residiam no andar térreo do sobradão de minha avó. Uma alugada por uma senhorinha negra de aparência muito frágil, mas só de aparência, porque, apesar do seu um metro e meio de altura e peso, que com certeza não devia ultrapassar os cinquenta quilos, trabalhava com esmero na preparação de cheirosas cocadas. Colocadas em tabuleiros de alumínio que eram entregues ao filho, depois de prontas, para venda em algum ponto do bairro.
O pequeno cômodo, pelo que me lembro, consistia de uma sala onde havia, no mesmo espaço, quarto e, no lado extremo, a cozinha com fogão à lenha donde saía a iguaria citada, em tacho. Tudo cheirava à cocada.
Do outro lado, a locatária era uma senhora mais jovem, também negra, mãe de um casal de filhos. O mais novo regulava em idade com a minha irmã mais velha. Minha mãe sempre contava que minha irmã, quando pequena, era uma criança que costumava dar, às vezes, mordidas no braço roliço do amigo em questão. Certa vez, o garoto, em lágrimas, procurou pela minha mãe, mostrando as marcas dos dentes da filha no braço do pequeno chorão. Minha mãe, cansada da psicologia da boa conversa, buscou a pequena agressora e ordenou que a vítima desse uma boa mordida no braço estendido da minha irmã. Nessa hora, creio que minha mãe quis aplicar a máxima: quem com ferro fere, com ferro será ferido; mas, no caso, o melhor seria: quem com dente fere, com dente será ferido. Bom, pelo menos a terapia deu certo, pois nunca mais minha irmã mordeu o amigo.
Esta senhora mantinha em sua pequena moradia um salão onde atendia as clientes em busca de alisamento. Diferente da vizinha, o odor era uma mistura estranha, acompanhada de branca fumaça, quando a especialista, com habilidade, passava o ferro manual nas cabeleiras besuntadas de creme protetor. Algumas vezes, me posicionava perto de sua porta a admirar suas táticas, como o aparelho depositado em braseiro, para manter a temperatura e a ausência de qualquer incômodo por parte das clientes ao ver suas madeixas sendo alisadas e transformadas em harmoniosos penteados da época.
E no final do domingo, enquanto minha mãe esperava meu pai para retornarmos ao nosso apartamento sem área verde, buscávamos aproveitar ainda o belo espaço daquele quintal mágico, com brincadeiras como corre-cotia, esconde-esconde, bate-lata.
Com a morte de minha avó anos depois, deixou a mim e companheiros de algazarras, órfãos do belo quintal, que, hoje, confesso, que não passava de um grande terreno baldio ocupado outrora pelo cinema de meu avô Chico Turco o Cine São Francisco. Mas, na época, ele se transformava em nosso parque de diversões particular, aonde criávamos, montávamos e dávamos vida às nossas fantasias de criança.
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