Era 1958, todos os dias eu ia até a casa da minha tia que morava na Moóca, cuidar do meu priminho Eduardo, uma criança loira e linda. Eu morava na Rangel Pestana, e lá ia eu, a pé, até a Moóca, pela Rua Piratininga. Andava a rua toda e ia prestando atenção nos prédios, eram enormes, pois a maioria eram firmas. Não havia trânsito.
Bem no meio do caminho, do lado esquerdo da rua, havia um enorme casarão com um jardim imenso e lindo, uma grade de ferro muito alta separava o jardim da rua e eu parava, me encostava na grade, deslumbrada com o jardim e a casa. Ficava imaginando quem morava lá dentro. Teriam crianças? Será que teriam animais de estimação? Seriam felizes? A casa parecia um pouco triste. Ficava ali encostada, tentando desvendar o mistério daquela casa tão silenciosa.
Uma vez voltei da casa de titia com mamãe, apenas escurecia e eu pude ver o jardim com luzes e a casa toda iluminada, era dezembro, dava para ver uma enorme árvore de Natal com luzes coloridas. Deveria ser na sala de jantar, via-se de longe, pois o jardim era imenso. Fiquei tão feliz!
Não sei quantas vezes parei naquele portão enorme, para olhar aquela casa e aquele jardim silencioso como que escondendo um grande mistério.
Nunca soube o nome dos donos da casa, nem sequer via alguém ali no jardim, só sei que essa imagem nunca se desfez e quando ela me vem à memória, sinto um imenso vazio e uma saudade infinita do casarão da Rua Piratininga.
Nunca mais voltei naquele lugar, com certeza o casarão já foi demolido e a rua que naquele tempo era quase que deserta, seja hoje um burburinho de buzinas no ar.
O que me consola é a felicidade de ter vivido naquele tempo.
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