No passado os terrenos que hoje pertencem ao Cambuci, serviam de caminho para os tropeiros que vinham de Santos para São Paulo e vice-versa. O serviço de tropas em cavalos, ou sobre o dorso de mulas, era utilizado para o transporte de mercadorias provenientes da Europa que chegavam ao planalto de Piratininga, após um trajeto difícil e cheio de percalços pela Serra do Mar.
As estradas de ferro vieram resolver este problema, dinamizando as exportações de café e também o transporte de passageiros, trazendo o progresso que transformaria São Paulo nesta metrópole que conhecemos. O advento do trem, entretanto, colocou fim à atividade dos tropeiros, ficando desses homens, nenhum deles ilustre, somente histórias imaginárias de um passado distante. Conta-se, por exemplo, que em 1822, após proclamar a Independência do Brasil, no Ipiranga, o príncipe Dom Pedro seguiu pelas terras do Cambuci na direção do burgo paulistano. No caminho, festejado pelos convivas, lhe ofereceram uma bebida misturada a uma fruta de sabor azedo com um gosto especial. Dom Pedro, que não era de beber muito, provou um pouco da cachaça com cambuci para satisfazer o pedido de seus acompanhantes e houve quem dissesse que o príncipe teria gostado. De fato a pinga com cambuci foi muito famosa e além do que, antigamente, este fruto de casca parecida à do limão, mas com o umbigo de uma goiaba, tinha outras utilidades, servindo de cosmético líquido para hidratar a pele e desobstruir os poros.
O loteamento de antigas chácaras, no decorrer do século XX fez com que todo o bairro que servia de rota aos tropeiros fosse desmatado, e os pés de cambuci desapareceram por completo da paisagem urbana, a ponto de quase ninguém mais saber o significado do nome, nem como é a árvore que cresce em média, entre cinco e oito metros, ou mesmo o seu fruto. Entretanto, um grupo de moradores do Cambuci, está trazendo de volta essa árvore à sua antiga moradia. Um dos responsáveis pela redescoberta é o senhor João Batista Lazarini, de 80 anos, que conhece a planta ao vê-la de longe, porque na sua infância havia dessas árvores na região onde morava, o Bosque da Saúde, cujo nome é derivativo de um lugar com muita vegetação, onde as pessoas passeavam respirando ar puro.
Corria o ano de 1985 e em passagem pela cidade de Paraibuna – SP, seu João Lazarini obteve uma muda de cambuci retirada de uma estufa que a Cesp – Centrais Energéticas de São Paulo tinha montado para reflorestar uma área desmatada na construção de uma hidrelétrica. "Essa muda plantei em frente a casa onde eu morava, mas uma igreja que se tornou proprietária do imóvel vizinho ao meu, iniciou uma reforma que destruiu minha planta", conta seu João. Tempos depois, conseguiu outras mudas com a família Batistini, conhecida, em São Bernardo do Campo, pela quantidade de terrenos que possui. Essas mudas foram sendo plantadas aleatoriamente, nos lugares que ia descobrindo, durante as caminhadas matinais ao lado da esposa Áurea.
João Batista Lazarini tem uma história de vida, repleta de muito trabalho. Primeiro foi pintor na Vasp – Viação Aérea São Paulo, em um tempo onde o Aeroporto de Congonhas operava apenas no visual e com uma pista de terra. Depois se transferiu para companhia Light & Power onde foi operador em um usina transformadora de eletricidade, hoje chamadas de substação.
Nos fins de semana, seu João, fazia bicos em residências, como eletricista e nessas andanças, fazendo instalações, conheceu o Senhor Rubens Venosa, dono de antigo um antigo cinema do Cambuci, o Cine Riviera, localizado na Avenida Lins de Vasconcelos, onde mais tarde se instalou uma igreja, cujo teto em janeiro de 2009, desabou sobre os fiéis. Graças ao incentivo do dono do cinema, seu João comprou uma casa neste bairro, na década de 1970 e permanece até hoje na região, só que agora morando em um apartamento.
No ano de 2008 moradores da mesma decidiram unir esforços para trazer de volta os pés de cambuci ao bairro de origem e seu João se engajou rapidamente, obtendo com seus companheiros o apoio da prefeitura que havia implantado no bairro, um projeto de ações sociais auto-sustentáveis, vinculado à Secretaria Municipal de Participação e Parceria. "Deste modo tudo se tornou mais fácil e agora as mudas de cambuci, estão sendo trazidas do Viveiro de Plantas Manequinho Lopes, no Ibirapuera e entregues a quem desejar", informa seu João, acrescentando que a prefeitura exige de cada um, na retirada de uma muda, a assinatura de um termo de responsabilidade, garantindo que a aquela árvore será depois cuidada pela própria pessoa. É o que ele faz. Depois de plantar nos espaços existentes nas calçadas, conforme indicação da prefeitura, seu João retorna dias depois para ver como tudo está. Ás vezes tem surpresas desagradáveis. "Sabe como é, há muitos vândalos", reclama, mas assegura que pelo menos dez árvores que ele plantou continuam vivas e produzindo frutos.
A temporada de colheita do cambuci acontece entre março e maio. O pouco que é produzido pelas árvores plantadas nas ruas acaba sendo entregue a moradores do bairro, pois se descobriu que há pratos saborosos que levam cambuci na receita. Desde 2009 um restaurante na região oferece aos seus clientes nhoque, macarronada e doces à base da fruta. Até um circuito gastronômico que engloba restaurantes de mais seis cidades que trabalham com cambuci no cardápio, foi criado. Os municípios são os seguintes: Santo André, Rio Grande da Serra, Salesópolis, Paraibuna, Natividade da Serra e Ilhabela, além de São Paulo.
Há informações da existência de exemplares de cambuci em Parelheiros e M'Boi Mirim, nos quintais de várias residências e até mesmo nos matagais. A Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente incumbiu às subprefeituras um cadastramento da planta que é protegida por ter entrado na lista daquelas em fase de extinção. "Tenho um amigo na Ilha do Bororé, zona sul, o Borba, que tem um pé de cambuci na casa dele. Vou dar um jeito de cadastrarem também", avisa seu João Batista Lazarini, cheio de entusiasmo.
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