Que grata surpresa encontrar um site que compartilha as lembranças dos paulistanos ao seu próprio punho!
Não sou diferente. Embora a vida e a profissão tenham me levado para o sul do Brasil há 30 anos, ainda guardo com muito carinho as ricas lembranças de uma infância e juventude intensas num palco tão maravilhoso.
Às vezes, penso que naqueles anos, todo paulistano se conhecia e se cumprimentava nas ruas como membros da mesma família; interessante isso!
Mas o que me leva a escrever estas poucas linhas são fatos muito curiosos que sempre me vem à mente ao falar sobre São Paulo.
Eram realmente dias muito diferentes dos de hoje. Nossa casa em Santo Amaro ficava com as janelas abertas no verão enquanto dormíamos. Tinha o coreto na praça onde se apresentava uma banda nos finais de semana que, para os colégios estaduais, era o "point" da galera ficar conversando até meia-noite depois do final das aulas.
Tinha o clube com piscinas (ao lado de um terminal de ônibus atualmente – nem sei se ainda existe). Tinha o ônibus especial que nos transportava do largo São Sebastião até o centro da cidade mais rápido que os comuns.
E tinha o centro… Ah, o centro! Acredite ou não, quando jovens minha turma passeava até três da manhã pelo centro, nos cinemas, teatros, vendo vitrine e zoando com os gays da Praça da República (sem ofensas, pois não era o costume), mas era o lugar onde se podia vê-los esperando sabe lá quem e vez por outra se podia avistá-los em ação nos cantos escuros das praças (impressionante pra época).
Não raro também, era o acesso que se tinha aos famosos da TV. Eu mesmo quase fui atropelado por um Dodge vermelho na Avenida Rio Branco enquanto corria nos afazeres de office boy… Do volante, ouvi o grito de "tome mais cuidado garoto" do famoso e verdadeiro criador do moonwalk: Tony Tornado. Atores da Tupi e da Record fácil, fácil eram encontrados caminhando pelo centro, sendo admirados ao passar e livres de tietagens escandalosas e sem aparato de seguranças.
O Rauzito eu conheci na frente do salão do Silvinho (sem barba, eu desconfiei dos amigos que afirmavam ser ele; estava muito diferente). A linda Elis e seu sorriso, o simpaticíssimo Rolando Boldrim e a impressionante figura do João Pacífico tomando um golinho antes de chegar a pizza (pra abrir o apetite). O Valentino, a Elizete Cardoso e a figuraça do Valdique Soriano (caminhando com porte de galã na calçada da Ipiranga). Legal, não é?
Outro detalhe que não sei se ainda existe é o dedo de uma estátua de bronze no pé da escada que ia da Praça dos Gatos no Anhangabaú para o Teatro Municipal. Muita gente se apoiava naquele dedo, pois estava bem na curva à direita pra quem descia a escada com pressa e se apoiava nele, que brilhava como ouro polido na hora… Será que ainda está por lá?
E falando sobre estátuas, quando era office boy, passei pela primeira vez em frente à faculdade do Largo São Francisco e fiquei um tempão de boca aberta diante de uma pequena escultura que, mais tarde, aprendi apreciar a seu criador – o Beijo. Realmente o cara era o cara!
Daí passei a prestar mais atenção nas inumeráveis esculturas espalhadas pela cidade. Você já notou? Cada uma mais linda que a outra e mais intensa em sua mensagem…
Entre a Libero Badaró e o Anhangabaú, tinha um monumento com asas bem grande que chamou a atenção, pois um maluco aparentemente deprimido subiu no pescoço da personagem e, sentado como um filho nos ombros do pai, começou a rezar em voz alta juntando um número considerável de pessoas ao redor pra ver o que ia dar…
E dentro da galeria do Viaduto do Chá, o Moisés de Michelangelo só faltava falar mesmo… Baden Powel (o Escoteiro) na Praça da República; as figuras em volta do telhado do Teatro Municipal; Marechal Teodoro próximo à rodoviária velha…
O Jardim da Luz… Nossa, se for escrever tudo aqui, não vai sobrar espaço pras outras pessoas contarem suas história e suas lembranças de Sampa!
Dava um trabalho daqueles conhecer a São Paulo daqueles dias…
Veja só: pra ir ao Zoológico, a gente se preparava como se fosse para um grande evento! Nem lembro quantos ônibus eram necessários até chegarmos bem na porta (que festa!).
O Butantã era na periferia (bem longe!) e os adultos diziam que tal localização do Instituto Butantã era para não correr o risco de escapar umas cobrinhas pela cidade e atacar as pessoas. Dá pra acreditar? Nós acreditávamos!
Um detalhe que é muito engraçado e que os cinquentões vão lembrar são os ônibus que iam pros bairros mais distantes na sexta-feira (final do expediente) com aquele cheiro de sabonete do pessoal que tomava banho nas empresas (comum na época). Dava até pra imaginar a marca do sabonete!
E à noite, a gente subia ao ônibus pro centro (com mais atrações culturais) e sentia a variedade de perfumes que o pessoal usava para "sair". Hoje é muito engraçado lembrar disso, ma na época, nem todos podiam comprar um carro e muitos só andavam de ônibus… Dá pra imaginar?
Se você está lendo este texto e tem menos de 30 anos, pode pensar que se trata de uma babaquice de um velho sentimental. Bem, pode até parecer, porque sou uma pessoa simples como você. Mas hoje, quando ouço aquela música que sempre tocava na Jovem Pan (“São Paulo que amanhece trabalhaaaaaaanndooooo…”), tenho estas lembranças que vão ficar comigo para todo o sempre. Terei na tela da minha memória a imagem de uma cidade cheia de luz durante a noite e imensamente acolhedora durante o dia.
Não quero dizer que não tinha problemas, mas o que quero dizer é que, em algum ponto da história, nós nos permitimos sermos engolidos pelo orgulho, pela vaidade, pelo individualismo e pela volúpia do poder pelo poder. De andar por cima da cidade e se vangloriar disso.
Em algum ponto da história, permitimos que nossos filhos andassem nus e famintos pelas calçadas até que encontrassem um "tutor" que garantiu e garante a destruição da sua alma quimicamente. Antes aprendíamos a falar Francês nas escolas, porque era a língua diplomática. Vá hoje à França e sinta o cheiro do centro de Paris ou, então, faça como eu, que soube por quem foi e sentiu o fedor!
Sinta o cheiro do centro de Sampa hoje! E as pichações me deixaram muito triste quando fui visitar parentes há pouco tempo. Cheguei às lágrimas. Se o paulistano ou o forasteiro que adotou esta cidade para fazer sua morada pudesse ver melhor a cidade, certamente se esforçaria mais para ser um melhor cidadão e um exemplo para a multiplicação desta idéia de que, melhorando nós mesmos, poderemos mudar o mundo. Começando pela nossa querida São Paulo. Faça isso e me surpreenda quando passar novamente por aí.
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