Igrejas de São Paulo I

Nem só de saudade e lembrança vive o homem. E nem só de saudade e lembrança vive uma cidade. O momento presente, o hoje pode ser sim o melhor tempo, basta que olhemos para ele com atenção livres de pré-conceitos.

E, hoje, parece que quanto mais vejo minha cidade sofrer com tantos problemas, mais me encanto por ela, como se ela precisasse de meu carinho, compreensão e amor para melhor sua auto-estima e seguir em frente…

O fato é que, apesar de tudo, tudo mesmo, amo esta cidade e sinto por ela um imenso carinho, como aquele sentimento que se tem pelas pessoas… Afinal, ela é mesmo um organismo vivo! Assim sinto esta terra que me viu nascer, crescer e amadurecer. Aqui sinto que estou em casa, porque aqui é o meu lar.

Todos os dias caminho, nem que seja um pouquinho, por suas ruas; algumas bonitas e tranquilas, outras nem tanto, mas aprendi a ver beleza em cada uma delas. Uma beleza única, como a beleza das pessoas, que nunca se repete.

E as igrejas? Você já prestou atenção nas igrejas de São Paulo? Já prometi pra mim mesma que, quando me aposentar, vou descobrir cada igreja desta cidade e visitar todas. Não, não sou carola, mas não há maior ilha de paz e silêncio nesta super, hiper metrópole gigante do que o interior fresco e calmo de uma igreja.

Houve um tempo em que tinha um horário de almoço mais longo e podia usar uma grande parte dele para fazer o que quisesse. Foi assim que pude conhecer algumas igrejas impressionantes aqui no centro da cidade.

Largo de São Francisco, duas igrejas: São Francisco e São Francisco. Isso mesmo, São Francisco e São Francisco. Ambas incríveis e históricas. A que fica ao lado da Faculdade de Direito da USP foi recentemente restaurada. Pessoas entrando e saindo o tempo todo, frades simpáticos e atarefados pelos corredores, bazar, lojinha… Tudo tão simples e tão familiar que dá para passar o dia por lá, à vontade, como se estivéssemos em casa. A palavra certa para ela é acolhedora, como o próprio São Francisco!

A outra, ao lado, é a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco e é minha paixão insubstituível… Está fechada por tempo indeterminado, passando por uma necessária restauração. Ali me sinto como dentro de um abraço afetuoso, protegida e livre para simplesmente ser. Ela foi uma igreja frequentada por escravos e ainda se pode sentir a força de suas orações impregnando as paredes, as imagens, o assoalho de tábua corrida e o maravilhoso altar-mor onde um São Francisco enamorado desce gentilmente da cruz do Cristo morto. Na sua suave penumbra com cheiro de velas e cera, eu podia passar uma hora mergulhada em reflexões, em meditação, totalmente em paz e solidão!

Só mesmo quem não conhece esses recantos que estão fora do tempo e da vida louca da cidade é que pode dizer que não gosta de São Paulo!

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