Dizem que quem vive do passado, é museu. O que seria de nós, se pela nossa memória não passasse um filme dos momentos mais importantes da nossa vida, principalmente os melhores. E os meus momentos, jamais se apagarão!
Dona Vilma e Seu Xisto, um casal maravilhoso que morava na vila Campestre Jabaquara em 1956,e que com muito amor, recebia as crianças pobres da redondeza, em sua salinha minúscula, para ensinar as primeiras letrinhas.
Como era bom chegar lá e antes da aula, saborear os sequilhos quentinhos feitos por ela. Torcia pro dia seguinte chegar logo, pois adorava degustar seus biscoitinhos. Eu tinha cinco anos!
Com seis, fui para o pré num sobradinho pequeno da Dona Iraní. Uma professora meiga como um anjo, que com todo amor do mundo, pegava na nossa mão, ajudando a fazer bolinhas, ondinhas etc.
Aos sete anos entrei numa escola estadual. Grupo Escolar Dr. Ângelo Mendes de Almeida, uma escola toda feita de madeira, que ficava numa baixada, que no inverno gelava mais que o polo norte. Mas eu amava caminhar pelas ruas de barro e notar nas folhas, pequenas gotas de orvalho. Às vezes chorava de frio, pois os meus cotovelos ficavam à mostra, por causa da malha azul marinho, surrada. Mas eu era feliz.
Neste ano conheci Dona Nilza Macedo, uma negra forte (hoje a chamariam de obesa), mas na época seria excesso de formosura. Embora ela fosse bem avantajada, possuía um coração meigo e uma alma singela. E como eu gostava de ficar olhando os seus sapatos de salto. E apesar do seu peso, ela caminhava como que levitando, e eu a via como um ídolo, principalmente quando ela me deixava levar os seus livros, até o ponto do ônibus.
Dez anos depois, eu a encontrei na Vila Mariana, ela pegou minhas mãos e desejou que da próxima vez que me encontrasse, eu estivesse com uma aliança no dedo. Quatro anos mais tarde eu estava casada!
No segundo ano foi a vez da Dona Hortília Zangarí cruzar o meu caminho. Estatura baixa, cabelos curtinhos e claros, usando uma sandália Channel, que dava graça ao seu andar. Mas apesar da baixa estatura, seu olhar impunha muito respeito aos alunos, aliás, tenho saudade desse tempo em que os pais ensinavam aos filhos, como respeitar os seus mestres.
Em 1960 fui para o terceiro ano. Dona Elza Siqueira, muito amável e que por trás dos seus óculos, percebia o que a classe inteira fazia. E quando entrava seu Francisco Covello, nosso querido diretor, bastava uma olhada apenas para que todos se levantassem e somente quando ele se retirava, é que sentávamos novamente. Gostava muito dela, mas infelizmente neste ano eu não passei, meu pai tinha comprado uma tevê, e por causa do Doutor Kildare eu repetí!
E lá estava eu no terceiro ano novamente, e desta vez com a Dona Roselí. Tão linda que mais parecia uma estrela do cinema. E o que mais me impressionava, era a facilidade com que ela escrevia com as duas mãos. Aquilo para mim, era coisa do outro mundo.
Hoje entendo que o ser humano, é capaz de tudo!
Finalmente cheguei até a quarta série e desta vez, o coração começava a apertar, já que aquele ano seria o último do curso primário. Mas para a minha alegria, me deparei novamente com a Dona Hortília na minha vida. Estudei com afinco e fechei o ano com a média 80.
Mas uma notícia nos deixou a todos maravilhados. No próximo ano, teríamos o curso ginasial. E com que alegria eu ia com minha saia plissada, meu sapato Vulcabrás 752 e minha blusinha branca, nas aulas dadas por Dona Dália, uma professora bonita e ainda por cima, tinha um irmão advogado, imaginem se naquele tempo bancário e professor já tinha fama de bom partido, imaginem um advogado. Mas ela era muito simples, e assim eu terminei a quinta série ou primeiro ginasial.
Hoje revendo esse filme, me lembro com saudades e me reverencio com todos os meus mestres com carinho.
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