Era o ano de 1957. São Paulo ainda não possuía a frota de carros como hoje em dia. O trânsito era tranquilo, poucos carros importados rodavam pelas ruas.
Eu morava numa pensão na Rua Genebra, no centro de São Paulo. Trabalhava na Empresa Folha da Manhã S/A, situada na Alameda Barão de Limeira. Nessa empresa, cumpria o expediente no horário das 20h até às 2h da manhã. Saia do jornal às 2h e chegava à pensão por volta das 2h30. Andava uma distância aproximada de 1,6 km, percorrendo o seguinte caminho: Alameda Barão de Limeira, Rua General Osório, Largo do Arouche, Praça da República, Avenida São Luiz, Viaduto Nove de Julho, Viaduto Jacareí, chegando finalmente à Rua Genebra, bem próximo à Rua Maria Paula.
Nesse horário da madrugada, os ônibus e bondes já não mais rodavam, portanto, não me sobrava alternativa senão fazer este percurso a pé. Nos dias de hoje é impossível admitir que uma pessoa andasse sozinha pelo centro da cidade, na calada da noite, sem receio de ser assaltada… Todas as noites, eu caminhava pelas ruas desertas da cidade, despreocupado e nem de longe imaginava qualquer perigo.
A pensão onde eu morava era uma casa construída sobre a encosta de um morro. Para atingir a entrada da casa, era necessário subir uns trinta degraus por uma escada lateral. A porta de entrada abria-se para uma varanda descoberta, ao longo da qual ficavam quatro quartos enfileirados e justapostos. Da varanda, tínhamos acesso à sala de jantar. Uma sala ampla de 25 metros quadrados, com uma mesa ao centro que media mais ou menos 3,5 m de comprimento por 1,5 m de largura. Atravessando a sala de jantar, ao fundo, através de um corredor, chegávamos ao banheiro coletivo; um só banheiro para 20 pensionistas.
Uma noite, eu chegava do trabalho despreocupado, abri a porta principal da casa e atravessei a varanda em direção ao meu quarto. Abri a porta do quarto. Tateando na escuridão, procurei a "perinha” (interruptor de luz). Com a mão direita toquei na "perinha", que bateu com força contra a parede. Com a mão esquerda apoiei-me nas costelas de alguém que dormia na cama que até ontem estava vazia. Retirei depressa a minha mão. Um grito de horror reboou pelas quatro paredes do quarto. Um ser estranho abalou-se da cama para fora do quarto com dois pulos numa perna só e, num segundo, já estava na varanda, indo em direção à rua pela porta de saída.
Instintivamente também fugi do quarto atrás do "saci pererê". O desconhecido fugia de mim como seu eu estivesse lhe perseguindo! Entretanto, eu também corri, porque estava com medo! Ambos fugindo não sei de que, pois ninguém me avisou que um companheiro de quarto ocuparia a vaga naquele dia.
Na verdade, o desconhecido soltou um urro tão apavorante que acordou os pensionistas dos quartos vizinhos. Os moradores, de pijama ou só de cueca, aglomeravam-se na varanda, curiosos para saber o que tinha acontecido. Com o olhar interrogativo, todos se perguntavam: “Quem foi assassinado?”.
De repente, o desconhecido aparece na porta principal da casa, com as calças molhadas por ele mesmo e pálido como uma cera. Para espanto geral, ele nada disse. Manquitolando, correu para o quarto e de lá saiu em direção ao banheiro, com toalha e muda de pijama nos braços.
Como ninguém sabia o nome do nosso estranho personagem, ele ganhou o apelido de "o assustado".
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