Ocasionalmente ia com papai pescar na represa do Guarapiranga. Levantávamos de madrugada, pegávamos o farnel preparado por mamãe e subíamos até o Instituto Biológico pra pegar o bonde Santo Amaro. Era o amarelão, um bonde que parecia um vagão de estrada de ferro e que tinha reboque. Eu gostava de viajar no reboque, que tinha as janelas mais baixas. O bonde iniciava a viagem na praça da Sé. Pontualmente às 4 h 43 min, na parada Biológico, apitava com um som de locomotiva, abandonava a av. Rodrigues Alves urbana e entrava na av. Rodrigues Alves exclusiva para a linha de bondes, numa reta de quase quinze quilômetros até Santo Amaro. Perto de Santo Amaro, na parada Floriano Peixoto (na lateral do Clube do Banespa), o motorneiro descia e, com uma chave especial, acionava um semáforo de aviso de linha ocupada. Explicando melhor, até ali a linha era dupla. Dali até a entrada de Santo Amaro, linha singela. No 7º Desvio, onde é a bifurcação das avenidas Adolfo Pinheiro e Vereador José Diniz, o motorneiro descia novamente para acionar o semáforo, liberando a linha. Depois passávamos pela antiga estação de trens (nota 1), pelo centro de Santo Amaro e largo São Sebastião. A viagem terminava junto ao rio Pinheiros, perto da ponte do Socorro. Ali havia um abrigo de madeira betumada. Cruzávamos a ponte de madeira e tomávamos a av. De Pinedo até o paredão da represa, o qual era uma atração turística, com estaleiros e restaurantes nos arredores. O golpe de 64 tornou aquilo área de segurança nacional e, desde então, continua fechada ao público. Sou um dos poucos paulistanos ainda vivos que pescou acarás e lambaris no rio Pinheiros, sob a ponte do Socorro. Tio Olindo tinha um barco atracado junto à barragem da represa do Guarapiranga e uma vez fomos dali até a Praia do Sol, um lugar onde só se chegava pela água ou por trilha no mato. Esse lugar é onde está o posto de bombeiros da av. Robert Kennedy.
(Nota 1) Passando pela parada Frei Gaspar (atual esquina da av.Vereador José Diniz com rua Frei Gaspar), papai contou como eram as coisas em 1917. Pra ir do centro de São Paulo até o centro de Santo Amaro, pegava-se um bonde até a Estação Vila Mariana. Alí pegava-se o trem, cujo percurso era: rua Domingos de Moraes, av. Jabaquara e, após a igreja de São Judas, no ponto mais alto da capital, iniciava a descida, passando pelo atual aeroporto, por onde estão os hangares da VASP. Continuava a descida até o Buraco do Peixe (Piraquara). Ali havia água para abastecer a locomotiva para enfrentar a subida na volta. Na estação Volta Redonda, aproximadamente onde é a esquina da rua Vicente Leporace, havia caixa d'água, depósito de lenha, chefe de estação e telefone. Depois vinha a Parada Cordeiro, a Parada Galinheiro, Parada Alto da Boa Vista, Parada São José (onde está o convento) e, finalmente, Estação Santo Amaro, na atual praça Santa Cruz. Havia ainda uma extensão de 600 metros até o Ponto da Vila, atual Largo 13 de maio.