Quando garoto eu morava numa localidade um pouco afastada da cidade de São Paulo, chamava-se Taipas, que depois passou a chamar-se Jaraguá, por causa do pico com o mesmo nome. O único meio de transporte era o trem da Santos-Jundiaí. Uma melhor situação escolar tinha que ser obtida nos colégios do bairro da Lapa, distante 15 minutos de trem. Aos 13 anos fui trabalhar numa firma na Av. da Luz, como auxiliar de almoxarife e office-boy. Todos os sábados tinha que ir a Santo Amaro de Bonde, para buscar no Frígor Eder as encomendas dos diretores.
Era uma aventura. Aos 14 anos fui trabalhar na API-Associação Paulista de Imprensa, como arquivista e office-boy. Convivi na época com grandes nomes dos jornais e das rádios como Carlos Spera, Tico-tico,Vicente Leporace, Freitas Nobre, além dos escritores Willi Aureli, Arsenio Tavolieri e do teatrólogo Aristides de Basile, que usava um cognome que no momento não me recordo.
Minha forma física nessa época era de um maratonista, porque todo final de expediente eu tinha que entregar comunicados noticiosos aos jornais. Tudo feito a pé e eram longe um do outro: Folha, Estadão, Ultima Hora, O Esporte, Diário Popular, Diários Associados etc. Terminado o serviço eu podia ir para casa, isso nunca antes das 20 horas.
Durante o dia, quando saia à rua para fazer bancos, divertia-me com os camelôs que faziam a bolinha sumir dentre três copinhos, lupa que fazia enxergar no interior do ovo e lupa que eliminava a roupa das mulheres. Eram truques bobos, mas que juntava um bando de gente no Largo São Bento, Praça do Patriarca etc.
O que eu mais gostava era aquele lance de logo pela manhã começar a olhar e apontar para o céu. Começava a juntar gente e aquilo ficava o dia todo. Quando eu passava de volta, no fim da tarde, ainda tinha um monte de gente olhando para cima procurando algo que não existia. Essas brincadeiras inocentes, infelizmente, não existem mais.
O caixa do banco, naquela época, era muito mais importante que o gerente de hoje. Ele tinha muita autonomia e conhecia pessoalmente a maioria dos correntistas, coisa inimaginável nos dias de hoje. Apreciava também os restaurantes populares que infelizmente tinham grandes filas.
Eram do Sesc no Anhangabaú, Sesi no Palácio Mauá e Liga das Senhoras Católicas nos baixos do Viaduto do Chá. Não posso esquecer também do restaurante giratório, próximo ao Largo Paissandú e que hoje cairia como uma luva como ‘fast-food’.
e-mail do autor: [email protected]