Memórias Lácteas

Nasci, como todos sabem, em São Paulo, na Maternidade São Paulo; vivi até meus 18 anos na velha casa da Rua Augusta 291, de ternas memórias. São Paulo, nos anos 50, era ainda uma cidade um tanto quanto provinciana, mas imensamente atraente e acolhedora. Esta cidade foi cenário de muitas das minhas aventuras. A maioria ainda volta à minha mente; outras, menos importantes, estão no limbo da lembrança. Uma hora qualquer elas resolvem voltar e eu, se possível, as escrevo e publico neste site.

Hoje, dois retalhos da minha existência voltaram a bailar no meu pensamento, e então resolvi descrevê-los. A primeira lembrança foi gerada quando via algumas fotos antigas de São Paulo, uma foto da Rua Direita ativou minha memória e lembrei-me que nessa rua existiam algumas lojas populares. Algumas ainda hoje por lá estão, As Lojas Americanas, por exemplo. Existiam também as Lojas Brasileiras e outras que tais. Minha família as conhecia por "loja dos dois mil réis".

Bem, nessas lojas eu mais o Zilando, o Zicler e o Juca Batista, fizemos diversas incursões. Umas vezes para comer os lindos sanduíches de Salsicha ali preparados e outras para, em total peraltice, surrupiar uma ou outra bijuteria, pelo prazer da aventura e para ganhar bons carinhos de nossas mães que, sem nada desconfiarem, agradeciam calorosamente os presentes recebidos. Eram camafeus de plástico ou brinquinhos de vidrilho, mas rendiam muitos agradinhos.

Outra memória que me veio à mente foi referente às nossas estadas na chácara do Sr. Freitas (pai do Zilando). Essa chácara situava-se no Rio Pequeno, um pequeno lugarejo próximo a Osasco. Na época, a distância de nossas casas até aquele lugarejo era enorme, quase uma viagem. Tomava-se o bonde Pinheiros na Rua da Consolação e se ia até o ponto final no Largo de Pinheiros. Depois, na Rua Butantã, embarcava-se no ônibus Rio Pequeno e se fazia a última parte do percurso.

Para chegar à chácara tínhamos três opções: descer no vilarejo do mercadinho e fazer uma caminhada em linha reta de mais ou menos 5 km, outra opção era descer entre o mercadinho e o ponto final do ônibus, na Avenida Corifeu de Azevedo Marques, fazer um percurso de mais ou menos 3 km, subindo e descendo morros para entrar na chácara pela área da piscina, e subir todo o morro onde se localizava o pomar para chegar a casa e a terceira opção era tão exaustiva como a primeira ou a segunda. Assim sendo, nossas idas eram movidas por mera emoção e aventura. Nas manhãs, a compra dos produtos para o desjejum tinha que ser feita no empório da Avenida Rio Pequeno, próximo ao ponto final do ônibus. Eram caminhadas de mais ou menos 6 km entre ida e volta, que fazíamos com muitas brincadeiras.

Na metade do caminho ficava um pequeno estábulo onde comprávamos o leito que seria consumido durante o dia. O vasilhame do leite era uma lata que recebia 2 litros do leite ordenhado na hora; nós comprávamos os 2 litros e ganhávamos um litro extra, que era consumido ao final da caminhada, para repor nossas forças. Esse presentinho era a mola mestra para evitar nossa recusa em fazer as tais compras matinais.

As noites nessa chácara eram cheias de aventuras. A preferida delas era colocar o gramofone que lá existia a funcionar e ouvir discos gravados em cera ao som de velhos lampiões.

Essa era uma das faces da São Paulo que eu vivi e adorava.

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