José de Freitas Valle e a Villa Kyrial

No início do século XX São Paulo entrava numa auspiciosa era de inovações. Os postes de lampiões a gás foram substituídos pelos de luz elétrica, charretes e carruagens cediam lugar aos bondes movidos a eletricidade e alguns poucos carros já circulavam pelas ruas. Ao redor do ano de 1904, período em que as grandes conquistas seguiam contínuo progresso – mais notadamente no plano cultural, que aflorava dia a dia com mais força – São Paulo resplandecia numa época considerada a mais bela até então. Foi o período conhecido como "belle epoque” paulistana, termo francês cujo modernismo influenciava toda a elite aqui existente.

Jovens de todos os Estados brasileiros atravessavam fronteiras rumo a São Paulo com a finalidade de estudar numa das mais renomadas e concorridas faculdades do mundo: a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Inúmeros são os vultos brasileiros que enobreceram as "arcadas franciscanas" com sua presença ilustre. Ao mesmo tempo em que a nossa cultura era descoberta pelos estrangeiros e pelos próprios brasileiros, outra cultura, a do plantio, expandia-se por todo o interior de São Paulo: a cultura do café. Proprietários das grandes e imponentes fazendas cafeeiras logo passaram a habitar os belos palacetes situados num dos pontos mais altos da cidade, a Avenida Paulista, que acabou por se transformar no reduto dos "barões do café".

Enquanto a cidade começava a se expandir por todos os lados, os nobres grãos de café aromatizavam o ar paulista e enchiam os bolsos dos fazendeiros que se dedicavam ao cultivo da planta que passou a ser a maior fonte de divisas para o Brasil. Se de um lado deveu-se ao "baronato cafeeiro" a grande deslanchada financeira do nosso país, de outro, pode-se afirmar que ficou por conta de um ilustre desconhecido gaúcho o despontar da cultura paulistana: José de Freitas Valle, natural da cidade de Alegrete, veio para São Paulo estudar Direito e aqui fincou suas raízes pelo resto da vida. Era o ano de 1888.

Antes de terminar o curso, casou-se com a herdeira de um dos maiores produtores de café na região de Campinas. Se já era rico até então, juntadas as fortunas, tornou-se milionário. Em 1904, mesmo ano em que foi eleito Deputado Estadual pelo Partido Republicano Paulista, comprou de alguns alemães uma chácara que ficava na Rua Domingos de Moraes, nº 10, situada no bairro da Vila Mariana, pouco povoado, mas de terras altas e solo fértil. Sua localização não podia ser melhor: colada à Estrada do Vergueiro que unia o centro da cidade ao litoral, diretamente, pelo antigo Caminho do Mar, cuja paisagem é bela e exuberante até hoje. Além disso, havia a proximidade com a luxuosa Avenida Paulista e seus ricos moradores.

A chácara, conhecida como Vila Gerda e rebatizada por seu novo proprietário com o nome de Villa Kyrial, possuía mil metros quadrados, com frente para a própria Rua Domingos de Moraes e fundos para a Rua Cubatão. O principal propósito de Freitas Valle era transformar a Villa Kyrial num reduto de cultura. E foi exatamente o que aconteceu. Nossa cidade carecia muito de espaços apropriados para a convivência dos boêmios intelectuais e o vasto salão da Villa tornou-se o ponto de encontro de todos eles. Assim, a vida em São Paulo passou a girar em torno da Faculdade de Direito e das festas, encontros culturais, almoços e jantares que ocorriam na Villa Kyrial.

Em pouco tempo, lá se encontravam artistas de todos os gêneros: literatos, músicos, políticos, artistas plásticos, atores etc. Foram muitos os talentos que se revelaram em meio aos freqüentes saraus, concertos, exposições, leituras e conferências, sempre organizadas e realizadas por Freitas Valle. Graças a ele, ao seu empenho e prodigiosa dedicação, a Villa Kyrial nada deveu à Academia de Arte de São Paulo.

Freitas Valle, além de advogado, educador, político (foi deputado e senador da República por São Paulo), mecenas dos talentos então descobertos e por ele protegidos, também foi "Freval", o perfumista, "Jacques D'Auvray", o escritor, e "Jean-Jean", maître e excelente "gourmet". Embrenhou-se com garra na luta pelo ensino das artes, razão pela qual se transformou num dos principais dirigentes do Pensionato Artístico do Estado de São Paulo. E foi assim que, nesse cenário, o mundo dos artistas começou a antever a chegada de um novo movimento cultural: o Modernismo.

Leonor Aguiar, Victor Brecheret, Lazar Segal, Francisco Mignone, João de Souza Lima, Manoel Bandeira, Tarsila do Amaral, Villa-Lobos, Anita Malfatti foram, entre outros, alguns dos talentos que puderam terminar ou aprimorar seus estudos na Europa. Sempre e graças à interferência de Freitas Valle que, ao lado de Washington Luis, propiciou as condições necessárias para o aprimoramento da maioria dos participantes da Semana de Arte Moderna de 1922, o movimento que resgatou a identidade nacional para a arte, a música e a literatura. Por outro lado, a Villa Kyrial foi um autêntico marco da "belle epoque" paulistana, onde a vida era vivida tal qual uma obra de arte.

No cotidiano respirava-se, comia-se, dormia-se e vivia-se a arte na sua mais profunda pureza, autenticidade e amor em toda a sua essência. Há muito mais a se falar sobre o tema, que é extenso, pois tanto a Villa quanto suas atividades, administradas por Freitas Valle, fizeram história em São Paulo e expandiram a nossa cultura pelo Brasil e exterior. Apesar de ter sido duramente criticado por Monteiro Lobato que, além de qualificá-lo como adepto de práticas políticas para se autopromover, dizia ser ele "um imitador da França", seu prestígio crescia a passos largos.

Este é, em breves linhas, um aparato da história da Villa Kyrial e de José de Freitas Valle, o gaúcho, que veio de Alegrete para São Paulo com a finalidade de estudar Direito. Fez mais, muito mais do que isso. Pena que hoje em dia seja pouco divulgado no âmbito escolar.

Obs.: Ao invés de ser tombada como patrimônio nacional, a mansão foi demolida em 1961, três anos após a morte de Freitas Valle. Suas paredes levaram consigo a alma da Villa Kyrial e enterraram todo um tesouro de documentos, quadros e livros que enriqueceram a nossa cultura.

e-mail do autor: [email protected]