Os coelhos do Bidu

Esta crônica é sobre um fato, muito engraçado, e que é de conhecimento de muita gente no bairro em que moro – São Miguel Paulista – Zona Leste de São Paulo. Aconteceu em 1973, tendo como protagonista um vizinho nosso, cujo apelido era "Bidu".

O Bidu aposentou-se muito novo, pois começou a trabalhar com treze anos de idade em uma fábrica de vidro e, por conta da atividade insalubre, conseguiu sua aposentaria aos trinta e nove anos, o que era permitido naquela época; era uma pessoa muito engraçada, contador de piadas, casos, discutia futebol, era pescador e ia pescar quase todos os dias.
Frequentador assíduo de botequins da região, gostava de tomar seus aperitivos e às vezes até exagerava, mas quando ele estava meio quente ficava mais engraçado, contava as piadas, falava alto, era muito querido por todos.

Nessa época, devia ter mais ou menos seus sessenta anos. O Bidu, volta e meia, levava para os botequins uma galinha, um frango, um pato e dizia sempre que tinha criação em sua casa; trazia também os peixes que pescava e que mandava preparar para servir como tira-gosto na hora da “beberagem” com seus amigos.

Nessa de levar as coisas nos bares, algumas vezes um coelho, coisa rara, todo mundo comia e ainda lambia os beiços; eu mesmo cheguei a comer várias vezes a carne de coelho, era uma delícia!

Assim era o nosso amigo Bidu, passava seu tempo como aposentado, pescando, tomando suas biritas nos bares, brincando com todo mundo, jogando sinuca. Certa ocasião o Bidu levou e mandou preparar, em uma padaria, quatro coelhos de uma vez. Ele os levou temperados e prontos para serem feitos. Estava sempre lá com seus amigos, tomando as biritas e comendo a carne de coelho, contado as piadas e, quando chegava alguém, ele oferecia:

_ "Não quer provar?"

Quem provava gostava e ainda elogiava o tempero preparado pelo Bidu.

Esta padaria é uma das mais antigas de meu bairro e ficava próxima a uma delegacia de polícia. Nesse meio tempo entrou lá um delegado de polícia com dois investigadores e, é lógico, conheciam o Bidu.

– “Olá Doutor” – disse o Bidu – “não quer experimentar o meu coelho”?

O delegado prontamente disse que sim, bem como os demais. Lá estavam comendo o coelho do Bidu, elogiando o tempero etc., quando o Bidu não perdeu tempo e para fazer média com o delegado disse:

_ “Doutor, eu trouxe quatro coelhos, vou dar um inteiro para o senhor levar para casa”, o que foi aceito pelo delegado que comentou:

_ “Minha mulher iria gostar, por que a gente só come coelho quando vai passear no interior”. Então o Bidu gritou para o balconista:

_ “Põe em uma fôrma de pizza e embrulha para o doutor levar.”
Nesse meio tempo um funcionário da delegacia veio chamar o delegado, pois tinha uma ocorrência para atender. O delegado então falou para o balconista que pegaria mais tarde. Mas para fazer media, disse Bidu:

_ “Pode deixar, doutor, que eu levo para o senhor lá na delegacia.”

Ao que o delegado responde:

_ “Está bem Bidu, pode levar.” E lá se foi o delegado para a delegacia, atender as ocorrências e deixando três cervejas pagas para Bidu e sua turma.

Tomaram as cervejas e Bidu foi entregar o pacote para o delegado dizendo:

_ “Está aí doutor, sua esposa vai gostar! Tá caprichado.”

_ “Obrigado Bidu”, disse o delegado, “até logo”.

Passadas algumas semanas, o Bidu se encontrava na padaria tomando suas biritas e novamente o delegado apareceu por lá e disse:

_ “Olá Bidu como vai? O seu coelho fez o maior sucesso, minha esposa gostou muito e me pediu para trazer mais. Então eu quero saber de você, se há possibilidade de me trazer pelo menos uns quatro, pois devem vir uns parentes meus para almoçar em casa e eu quero fazer uma surpresa para eles. Acredito que esses não comem coelho há muito tempo, depois que vieram do interior. Bidu, é possível trazer esta encomenda?” _ “Claro doutor”, respondeu Bidu, “é o só falar para que dia eu trago, tenho alguns que estão no ponto de abate.”

_ “Muito bom”, respondeu o delegado, “quanto você vai cobrar?”

_ “Para o senhor, doutor, nada! Vai ser cortesia, trago tudo limpinho, cortadinho e temperado, prontos para cozinhar, afinal o que vale é nossa amizade.”

Combinaram o dia para a entrega e na data certa o Bidu levou os coelhos, limpinhos, cortadinhos, temperados e prontos para serem cozinhados; tudo acondicionado em uma caixa térmica. E disse para o delegado:

_ “Doutor, o senhor me pediu quatro coelhos, mas em nome de nossa amizade eu trouxe seis.”

O delegado ficou agradecido e deu para Bidu o equivalente a R$ 100, à moeda de hoje, dizendo:

_ “Toma aí Bidu, não estou te pagando, mas sim te ajudando para você comprar ração para a sua criação de coelhos.”

_ “Ok”, disse o Bidu, “então muito obrigado doutor, querendo mais é só encomendar e até mais”.
Saindo da delegacia todo contente com o dinheirinho no bolso, sabe para onde foi? Para a padaria, onde ficou lá bebericando até anoitecer.

Passados alguns dias Bidu retornou à padaria e o balconista seu amigo comentou:

_ “Bidu, o delegado esteve aqui e comentou sobre os coelhos que você trouxe para ele, disse que fez o maior sucesso em sua casa, estava até perguntado por você para encomendar mais coelhos.”

_ “Legal”, disse o Bidu, “vou vir aqui no dia de plantão dele e combinar nova encomenda.”
A história se repetiu e o Bidu, por diversas vezes, trouxe coelhos para o delegado. Certo dia o Bidu estava em um bar perto de sua casa e o proprietário falou:

_ “Bidu, tinha uma viatura da polícia te procurando, perguntando por você e achei melhor não informar onde você morava; na viatura tinha um delegado que disse que te conhecia. Bidu rapidamente falou:

_ “Não esquenta, o delegado é meu amigo e com certeza está querendo que eu lhe entregue mais coelhos, pois ele adora os meus coelhos e eu vou fazer uma surpresa para ele. Vou entregar alguns que tenho em casa, abatidos.”

E assim fez. Foi em casa, apanhou três coelhos prontos para cozinhar e dirigiu-se à delegacia. Chegando lá o delegado não se encontrava e quem o atendeu foi um investigador que perguntou como era seu nome. Rapidamente, respondeu:

_ “Bidu”.

_ “Bidu”, repetiu o investigador, que disse:

_ “O senhor está preso.

_ “Preso?” “Como?” “Eu sou amigo do delegado, vim inclusive entregar uma encomenda para ele.”

_ “Não tem papo, o senhor está preso e vai aguardar a chegada do delegado.”

_ “O que fiz?” “Isto é um absurdo!”

E lá foi o Bidu para a cela, indignado, furioso, pois era amigo do delegado e o investigador não quis escutá-lo. Passadas algumas horas, vieram buscá-lo na cela e o levaram à presença do delegado. O Bidu imediatamente falou:

_ “Doutor, olha que injustiça estão fazendo comigo: me levaram preso, não me explicaram nada e nem deram ouvidos se somos amigos”. “O que está acontecendo?”
O delegado pediu para tirarem as algemas do Bidu, bem como, pediu para ficar a sós com ele. A sós o delegado perguntou:

_ “Bidu, onde é que você consegue os coelhos? ”Bidu imediatamente responde:

_ “Eu os crio doutor”.

_ “Cria onde?”

_ “Em casa”, respondeu Bidu.

O delegado pergunta novamente:

_ “Tem certeza do que está falando?”

_ “Tenho doutor, eu nunca ia mentir para o senhor, crio em minha casa”.

O delegado pacientemente falou:

_ “Mas Bidu, mandei fazer uma investigação e descobri que você mora em um apartamento que mal cabem duas pessoas; como cria coelhos lá???”

Bidu já nervoso, responde:

_ “Ora doutor, criando é claro. Tenho uma gaiola e os crio nela”.

Com a resposta, o delegado ficou nervoso e disse:

_ “Vou te mostrar umas fotos e quero que você me diga o que é.”

_ “Pois não doutor” – e olhando as fotos responde:

_ “São peles”.

_ “Peles de quê?”, pergunta o delegado.

_ “De coelho”, responde Bidu e pergunta como elas tinham ido parar na delegacia.

O delegado então começa a falar:

_ “Pois é Bidu, estas fotos foram tiradas por um vizinho seu, na lixeira do prédio. Aconteceu que por vários dias não haviam recolhido o lixo e começando a juntar moscas e feder, uma pessoa foi ver o que era e viu que eram peles de animais abatidos, mas não de coelhos, e sim de gatos, comprovado pelas patas dos mesmos, que estavam juntas. E esta pessoa viu que foi você quem colocou aqueles sacos no lixo. E então, o que você tem a dizer?”

O Bidu coçou a cabeça e sem titubear respondeu:

_ “O senhor está certo, são realmente peles de gato. Sabe como é doutor, não tem diferença entre o gato e o coelho, tanto é que o senhor é um apreciador de meus coelhos e até sua mulher e seus parentes não é?

_ “Coelhos?”, gritou o delegado. “Você me enganou, comi gato este tempo todo!”

_ “Não, não”, respondeu Bidu, “o mais certo é não chamar de gato e sim chamar de "coelho de telhado" não é doutor?”

O delegado ouvindo a resposta, não se conteve e deu uma enorme risada e disse:

_ “Tá certo Bidu, "coelho de telhado". Vou te dispensar, mas vou pedir para você não fazer mais isto, pois é crime e só não vou enquadrá-lo porque, perante a lei, eu sou seu cúmplice, pois encomendei os "coelhos de telhado" e vou mais longe ainda, que esta estória fique somente entre nós, nem mesmo minha mulher e meus parentes vão saber que comeram "gato por lebre".”
Bidu imediatamente respondeu:

_ “Tá bem doutor, não vou mais "criar" os “coelhos de telhado”, pode confiar em mim.” Após terem essa conversa o delegado perguntou:

_ “Responde aí Bidu, onde conseguia os coelhos de telhado?”

Bidu respondeu:

_ “É muito fácil doutor, na praça!”

_ “Na praça, que praça?” perguntou o delegado.

_ “Ora doutor, na Praça Ramos de Azevedo1,tem gato lá de montão, é só chegar lá, escolher os que estão no ponto, colocar dentro do saco e trazer; tem umas pessoas lá que até agradecem, pensando que você vai cuidar dos gatos.”

_ “Vai embora Bidu, não quero mais saber nem de gato nem de coelho e cumpra sua promessa, não conte para ninguém que eu comi os coelhos de telhado.”

_ “Tá bom doutor”, disse Bidu e saiu quase correndo da delegacia.

Na sequência, o delegado foi transferido de distrito e Bidu, claro, não cumpriu a promessa, pois quando tomava suas biritas e estava meio alto contava para todo mundo a estória do "coelho de telhado" e todos riam muito, inclusive eu. Outro dia, conversando com meu irmão Lau, relembramos essa estória, rimos muito, lembramos do nosso querido "Bidu" e agora estou tornando-a pública, admitindo que também comemos o "coelho de telhado" do Bidu.

Infelizmente, mas faz parte da vida, o nosso querido Bidu faleceu, mas quem o conheceu nunca vai se esquecer do seu estilo, que trazia alegria por onde passava, ficando aqui minhas homenagens ao mesmo. Eu aprecio uma carne de coelho mas, por precaução, só compro na fonte certa, pois não quero comer "coelho de telhado" e nem "gato por lebre", que comi enganado como nosso ilustre delegado.

* A praça Ramos de Azevedo fica no centro de São Paulo, no vale do Anhangabaú e nas décadas de 70 a 80, no local, existia uma grande quantidade de gatos, que foram abandonados por seus donos e lá procriaram, chegando a uma estatística, na época, de mais de 200 gatos. Era onde o Bidu ia buscar seus "coelhos de telhado" e acredito que tenha também obtido alguns na vizinhança, bem como, acreditamos que as galinhas e patos que o Bidu levava nos bares para serem servidos de petisco, claro, não podiam ser de sua criação, porque morava em apartamento. Talvez tenha conseguido perto das lagoas de "suas pescarias" e não se sabe como e, até que se prove o contrário, era de seu galinheiro no apartamento!