Iniciei estes escritos pensando em fazer deles apenas mais um comentário elogioso ao grande e sempre constante colunista Miguel Chammas mas, quando vi… É nisso que dá, Miguel, mexer tão bem com os sentimentos de seus leitores.<br>Vai, então, na forma de artigo, ou sei lá que nome pode-se dar a uma mal redigida manifestação de recônditas saudades. <br><br>Visitante bissexto, sempre que necessito temperar meus momentos com uma sadia nostalgia, recorro às páginas do São Paulo Minha Cidade. Faz-me tão bem! Retornam-me princípios apreendidos nas carteiras do Instituto de Educação Caetano de Campos. Revejo lugares, que vão de santos bares a profanos altares. Relembro amores, odores, sabores… Revivo tempos em que o ser humano tinha muito mais de humano que de simples ser. <br><br>Carência afetiva? Pode até mesmo ser, afinal a "modernidade" cobra-nos uma postura mais hermética, individualista, levando-nos a declinar os verbos apenas em seu singular e isto não se compatibiliza com o tipo de vida vivido nos anos 50, 60, 70… <br><br>O certo é que estar sempre atualizado é muito bom para o Windows, não tanto para nós. Não sou mais um "workaholic" e, em meu leque de conquistas, uma rede baloiçante hoje se faz preferência, desbancando antigos objetos de sonhos não realizados. <br><br>Assim é que…<br><br>Indo garimpar "recuerdos"* nos textos do São Paulo Minha Cidade – como nunca deixo de fazê-lo – busquei primeiro a página do Miguel Chammas.<br><br>Poderia ser a do Saidenberg, a do Laruccia, do Lopomo, do Chiappetta, da Margarida, da Doris… Todos estes (e outros agora não lembrados) têm o condão de me reconduzirem a uma felicidade que, nesses tempos idos, me chegava de forma gratuita e natural. <br><br>Nem precisei chegar ao fim do brilhante texto. Ao meio caminho, lá estava o propulsor da minha máquina do tempo: ACEPIPE!<br><br>ACEPIPE! Onde mais, nos dias de hoje, encontrar e saborear um acepipe, que não no saboroso "São Paulo Minha Cidade"? E nas páginas coloridas pelas mágicas mãos do Miguel Chammas!<br><br>Veio-me água à boca, aliás, para ser verdadeiro, veio-me Brahma Extra à boca (não se fazem mais extras como as da “Pilsen” e da “Brahma”. Por quê?).<br><br>ACEPIPE! Ao que chamávamos acepipe? À inesquecível salada de batatas, ladeada por duas divinas salsichas, comidas em pé nas “Saladas Paulista” e “Record”? Ou à sardinha inteira, comida com as mãos, à frente de um tosco “guardanapo?” de pano, pendurado na parede da pequena casa portuguesa da Rua Quintino Bocaiuva?<br>ACEPIPE! Muitos, talvez (e com razão), adjetivassem assim a pizza brotinho da “Casa Italiana”, parece-me que a criadora de tal formato. Só para não repeti-los, eu andava algo em torno de duzentos metros mais e ia desfrutar de igual sabor italiano, só que, fatiado, na “Ayrosa”!!!<br>ACEPIPE! Poderia ficar aqui relembrando sabores que se tornaram amores, ainda por muitas linhas, mas o duro é suportar a nostalgia, a cruenta saudade que faz acelerar o velho coração. <br><br>Se deixar, entra em cena a coxinha do “Fasano”; a esfiha dupla do “Paco” o sorvete da “Whisky”; a salsicha do Largo do Café; a Mortadela do Viaduto Santa Ifigênia; o bacalhau da “Tramontana”; o fusilli do “Massadoro”; a bomba de chocolate da “Charlu”; a Floresta Negra da “Dulca”… <br>Da esfiha dupla do “Paco” à coxinha do “Fasano”: nada mais democrático que um bom acepipe! ACEPIPE! Poderia até mesmo ser guloseima, mas o momento, o espaço, as memórias redivivas exigem mais: exigem ACEPIPE! Isto talvez restrinja seus leitores, afinal, nada mais letal que décadas de vida somadas. Somos cada vez menos. Mas enquanto ainda o somos, "acepipemos" à vontade. <br><br>Quem, como nós, viveu um tempo em que se era feliz e se sabia?!? Tem não só o direito mas, e principalmente, a obrigação de revolver nossos arquivos de saudades. Continue, Chammas, a adentrar o meu. Mantenho-lhe abertas as duas entradas que a ele levam: a da mente e a do coração. Entre à vontade.<br><br>Ah, ia esquecendo: se possível, traga um ACEPIPE! <br><br>* Desculpem-me pelo "recuerdos", mas recordação ou qualquer um de seus sinônimos, em português, não refletem a ternurenta emoção que alí recolho.<br>