Nasci em pleno dia de Santo Amaro, 15 de Janeiro. A Praça Capitão Thiago Luz, hoje leva o nome de um antigo comerciante de Santo Amaro, Salomão Karlik. A praça fica localizada entre as avenidas Adolfo Pinheiro, Dr. Antonio Bento, Conde de Itu e São José, em frente ao Teatro Paulo Eiró, e no ano de 68 foi instalado um mural do artista Julio Guerra, bem no centro do gramado.
O teatro Paulo Eiró foi inaugurado em 1957, e lembro que com a inauguração da TV Excelsior os testes iniciais daquela emissora foram feitos no teatro, e bem pitorescamente. Os técnicos daquela emissora solicitavam que nós, na época, meninos, caminhássemos de um lado para outro, sendo acompanhados pelas câmeras (testes).
Lembro também que quando havia espetáculos e não possuía publico suficiente para a realização do evento, éramos convidados a assistir a programação sem aquisição de ingressos. O teatro era utilizado na maioria das vezes, para colação de grau, das escolas da região, eu mesmo recebi meu diploma do primário lá.
Uma ou duas vezes por ano, o teatro era requisitado para a festa da comunidade japonesa, que a partir de sábado até o final das noites de domingo, era uma cantoria só (isso define a paixão do povo japonês pelo Karaokê). Engraçado, que em sua maioria eles vinham em caminhões, que na suas carrocerias existiam tábuas posicionadas como assento.
Na hora do almoço e jantar, eles subiam e sentados, abriam suas refeições (Bentô) que vinham acondicionadas em pano branco. Tudo muito limpo. Eu da janela de minha casa, que dava direto para a Praça observava tudo, como uma enorme vontade de experimentar tal iguaria. Quando o evento acontecia, nossa rua ficava dos dois lados tomados por aqueles caminhões.
O teatro tinha ao seu redor muitas marquises, e na época não era gradeado, como hoje. À noite os moradores de rua utilizavam daquelas coberturas, para dormirem. E nós, turma de garotos, fazíamos amizade com eles, ouvíamos suas histórias que eram sempre interessantes. Conhecíamos cada um pelo nome. Durante o dia eles trabalhavam engraxando portas de aço no comércio de Santo Amaro, e no final da tarde voltavam embriagados.
A vizinhança das ruas que circundam a Praça era solidária e muito unida. Ao entardecer saiam à porta de suas casas e ficavam conversando por um bom período de tempo. Tinha uma senhora, que todo final de ano, trazia uma imagem do menino Jesus, que ficava por uma noite em cada casa, e no dia seguinte, rezava-se um terço. A dona da casa servia um lanche então partiam todos para a entrega do menino Deus em outra residência.
Naquela época poucas pessoas possuíam carro ou telefone, os afortunados eram solidários aos que não tinham e disponibilizavam estes bens, não importando o horário. Tudo isso parece hoje irreal ou um conto imaginário, mais existiu, porque naqueles áureos tempos podia se confiar nas pessoas. Mas infelizmente tudo que é agradável um dia tem seu fim, as pessoas foram crescendo, casando, mudando de endereço, envelhecendo e o pior, falecendo (lei natural).
Outro dia, passando pelo local descrito, pude notar que uma grande incorporação tomou conta do espaço, das nossas antigas casas, destruindo nossa memória física, mas nunca conseguirá apagar o que sempre estará perpetuado em nossa mente e coração.
E-mail do autor: [email protected]