No meu bairro, os vizinhos e conhecidos se cumprimentam, como no interior. E foi com um bom dia que conheci um senhor, "bengaleiro", morador de um prédio próximo ao meu. Todos o conhecem, todavia, não sabem da sua arte “assobiatória”. Até então, eu só o tinha visto algumas vezes, em seus comedidos passos, limitados por uma prótese fixada em uma das pernas. O assobio me passou despercebido ou teve pouco significado.
Eu morava num apartamento da Rua Conselheiro Furtado, de cujos fundos se via os fundos da Igreja Nossa Senhora do Líbano, da Rua Tamandaré. Das árvores do estacionamento se ouviam algumas espécies de pássaros, como bentivis e sabiás. Eles acordavam cedo, muito antes do combinado, e faziam uma longa serenata.
Foram longos anos de orelhas tapadas, em ambos os sentidos. Mais tarde, me mudei para o apartamento 76, cinco andares acima. Lá, certamente poderia dormir sem meus protetores, pensava. Só não imaginava que, por ironia, teria a companhia de um "pássaro" menos canoro…
O bloco formava, com os finais 4, 5 e 7, um "U", em linhas retas, exibindo-me dezenas de janelas encortinadas, de fundo, inclusive do prédio ao lado, onde residia o "bico de flauta". E foi nesse ambiente, no dia da minha mudança, que ouvi uma música sendo assobiada durante quase todo o período do entra-e-sai dos carregadores.
No meu primeiro domingo, com mais tempo para arrumar aquele caos, menos agitado e, portanto, mais suscetível, me concentrei mais naqueles assobios. E pensava: "Será que ele não se cansa? Já deve estar com os beiços inchados…". Ele passara toda a manhã, tarde e parte da noite com raras "paradas obrigatórias". Exibindo sua arte ou resistência!
Lançando ao ar seu pequeno repertório de pobres e desconhecidas melodias. Por volta da metade da tarde identifique uma que lembrava uma música de Roberto Carlos, que fala em Nossa Senhora. E me veio uma vontade danada de rezar, mesmo não tendo religião. Na esperança de que, a despeito do longo tempo assobiado, não passasse de um caso passageiro.
Curioso, e já cansado da arrumação, coloquei a cabeça na janela, vasculhei a periferia, na horizontal e na vertical, numa frenética varredura, em busca daquele "passarinho", já que ainda não o tinha flagrado com o bico na botija! Vindo da padaria, nos cumprimentamos, e eu, querendo surpreendê-lo, perguntei: "E o assobio, como está?" E ele, como que altamente lisonjeado, me respondeu: "Está jóia!".
Os dias, semanas e meses se passaram, marcados pelos estridentes solos de bico. O que deixa-me com um misto de raiva, principalmente quando tento tocar meu violão tenor e admiração, pois afinal, pela sua aparência, deve estar por perto dos setenta anos de idade, mas tem um bicão de trinta!
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