Escola Mista da Bela Vista

Todos nós trazemos em nossas memórias as lembranças do nosso tempo de escola primária e, não seria diferente comigo. Nossos pais, correndo atrás de uma vaga, realizando a nossa matrícula, os preparativos com fardamento, material escolar e lá vamos nós, uma empreitada estudantil.

Cadernos, livros e lancheira a mão, nosso primeiro contato será com os novos coleguinhas de classe no pátio da escola e, até que normal desconforto dos primeiros encontros se dissipasse, ainda teríamos de conhecer a nova professora que nos acompanharia durante todo o ano letivo.

Depois do primeiro impacto, era hora de conhecer a nossa sala de aula e escolher em qual carteira sentar. E nela passar todo o período das instruções e aí, sim, já com a nova mestra nos conduzindo como uma perfeita anfitriã, identificando as dependências do pequeno colégio de uma única sala de aula.

Nossos pais sempre nos conduziam até a escola, até adquirirem a plena certeza de que, dias mais tarde, poderíamos fazer o itinerário sozinhos e em segurança, sem o perigo de nos desviar para 'gazetar', o que seria descoberto posteriormente por eles.

Os inícios das aulas eram sempre precedidos antes de adentrarmos para a sala de aula. De maneira uniforme no pátio onde entoávamos o hino Nacional e o hino da Bandeira, diariamente. Cada aluno tomava a ereta postura respeitosa e, com a mão direita sobre o peito, na altura do coração, cantávamos.

Tínhamos de cantá-los mesmo, pois o monitoramento para este ato cívico ficava a cargo de duas pessoas que muito marcaram a minha vida estudantil de meu curso elementar, as professoras Elza Brito e dona Hermengarda. Austeras e bem resolvidas na psicologia infantil.

Sendo a professora Elza Brito a mestra em didática, responsável inicial pelo que hoje sou. A sala de aula ocupada por quase meia centena de carteiras individuais, além do 'bureaux' da mestra e o necessário quadro-negro, oferecia o acolhimento confortável, ventilação e luminosidade natural através de suas grandes janelas envidraçadas.

Denominada, anteriormente como 1ª Escola Mista da Bela Vista, teve seu nome rebatizado para Escola Municipal Paulo Machado de Carvalho e ainda está localizada na Rua Aguiar de Barros, 160, esquina com a Rua Santo Amaro, no bairro da Bela Vista. De construção sólida, com portas principais e internas de duas folhas em madeira maciça, o pórtico principal acompanha a decoração barroca.

Seu telhado de quatro águas ainda é o mesmo de tempos atrás e um muro alto percorria todo o seu terreno até findar em um portão na Rua Santo Amaro, acesso dos pequenos alunos. Havia outro cômodo interno que não era utilizado como sala de aula e sim como depósito de velhas carteiras e outros pertences da escola.

No pátio, funcionavam a secretária e as dependências administrativas da escola, com sanitários e uma pequena cozinha. Já no curso das aulas, a professora Elza Brito era uma mestra ímpar e fazia-se entender pelo “modus operandi” muito comum daquela época.

As lições de casa não feitas, a má caligrafia e desmazelo pelos livros e cadernos eram motivos mais que suficientes para ficarmos de castigo. As algazarras na classe eram terminantemente proibidas e imediatamente reprimidas com alguns puxões de orelhas ou “reguadas” na cabeça (vai uma professora agir assim nos dias de hoje para ver o que lhe acontece…).

Tínhamos uma única professora, para todas as matérias. Inclusive artes, educação moral e cívica, declamação e poesia, que valiam pontos nas provas mensais e, as tais provas não eram objetivas, como as de hoje em dia em que um 'x' na opção correta não deixa espaço para o raciocínio mais lógico.

Tínhamos de “ralar a pestana” mesmo. Nossas festas cívicas ou mesmo as de calendários como Semana Santa, Juninas, Dia dos Professores e até mesmo aniversário dos colegas, eram momentos mágicos de confraternização entre todos nós e nossos familiares. Mas não tínhamos moleza nem nas férias no meio do ano, pois tínhamos os famosos deveres de 'férias'.

A professora Elza Brito era uma pessoa de estatura média baixa, “cheinha”, de cabelos acastanhados e armados com. Usava óculos com desenhos inspirados na década de cinquenta e, se não me falha a memória, morava no bairro de Santo Amaro. Enérgica e bastante incisiva, exigia o máximo de seus alunos e nunca se furtou em explicar qualquer que fosse a matéria.

Algumas vezes tive a suprema vontade de “trucidá-la”, achando que exigia demais de mim e de meus pequenos colegas, mas o tempo é senhor da razão, e hoje, posso observar o quanto foram valiosos estes primeiros caminhos da educação para mim. Não sei se viva está. Espero que sim e desfrutando o merecido descanso de sua aposentadoria, que espero que tenha sido justa.

E no alto de sua existência plena de sucessos educacionais, homenageio-a com este relato, dividindo com outras “Elzas” o meu agradecimento e reconhecimento, inclusive pelas “reguadas” e pelos puxões de orelhas, sobretudo pelo amor, dedicação e desvelo a tantos de nós dedicados.

Este episódio deu-se no final da década de cinquenta e início da década de sessenta. De lá para cá, muitas coisas mudaram nas escolas e nos colégios, advento de uma nova e progressista visão. De minha parte, fico com o passado, pois o antigo sempre me atraiu.

'Valeu Pró'. Deus a abençoe hoje e sempre e lhe complete com sua Santa Misericórdia. Receba um beijo de saudade neste seu coração de amiga e mestra.

Seu ex-aluno, Nelson de Assis.

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