Roque, o corvo larápio

Há muitos anos, nas décadas de cinqüenta e sessenta, não havia maior severidade por parte da fiscalização àqueles que criassem em suas casas animais tidos como em perigo de extinção. Também não havia o Ibama ou outro órgão de proteção da fauna. Dispúnhamos apenas da Associação Protetora dos Animais e só.

Lá em casa, a coisa não foi diferente dos lares que mantinham em "cativeiro", alguns animais silvestres, tais como, araras, papagaios, maritacas, pássaros diversos, cães, gatos, patos, marrecos, galinhas, jibóias, iguanas, corvos etc, etc, etc.

Meu saudoso pai, o velho Fernando (Felix, para os íntimos), tinha como distração cuidar de sua fauna. Eram treze cães, um gato, galinhas, patos e marrecos, a jibóia "Noêmia", jovem de quase quatro metros e um corvo batizado com o nome de "Roque".

Em minha infância não fui um exemplo de comportamento, mas era igual e normal como toda criança de minha idade, dos dez aos doze anos. E como todo peralta, também aprontava das minhas e era sempre "exemplado" por minha mãe e por meu pai quando me metia em confusões.

Se lá em casa, se algo se quebrasse, sumisse ou apresentasse defeito, eu seria o suspeito número um, já que meu irmão, mais velho que eu, era do tipo comportado e pouco parava em casa.

Nossa casa era típica anos trinta, com portas de duas folhas, janelas envidraçadas, tanto as portas como as janelas embandeiradas na parte superior com vidros trabalhados. Coisa linda. Os cômodos amplos e de tabuado largo para o soalho. Tinha uma boa altura até o forro do teto que em geral era de madeira.

Em algumas casas, esses forros formavam um losango e do centro pendia um lustre ou uma luminária. A parte interna desse forro dava lugar ao que conhecemos por sótão ou, erroneamente, socovão.

Todos os cômodos eram de teto forrado, com exceção da cozinha que recebia tratamento diferenciado e isolado. Era costumeiro ter um tipo de forração de treliça, para permitir a circulação do ar e os vapores dos cozimentos.

Voltando à forração dos cômodos, havia uma pequena abertura para, quando fosse necessário, alcançar o interior do sótão. Em função de alguns gatos vadios que teimavam em namorar no telhado, algumas telhas corriam do lugar, e isso permitia algumas goteiras em dias de chuva e por isso, a passagem não ficava tampada.

O corvo (tido como animal agourento) era cria de meu pai e habitava os escuros do sótão e por lá se aninhou, solteiro convicto, com o passar do tempo adquiriu um mau humor daqueles e, por lá, passava boa parte do tempo, só saindo para seus gorjeios e alimentação.

Minha mãe, como toda boa senhora que se prezasse, tinha suas jóias, badulaques e bijuterias, para realçar sua vaidade de mulher e, costumava deixá-las espalhadas pela casa, assim como algumas moedas e dinheiro de papel. Certa vez, ela deu por falta de um de seus brincos mais estimados. Não foi o par, apenas um e, pensando tê-lo perdido, conformou-se e deu o fato como perda.

Passados alguns dias, novos e misteriosos "sumiços" aconteceram lá em casa.
Foram outros brincos, broches, pequenas pulseiras, anéis, algumas moedas… uma pilhagem sem tamanho.

Minha mãe levantou uma suspeita sobre mim. Achava que eu andava muito estranho, com atitudes suspeitas e desconfiadas. Pronto. A culpa estava lançada e as suspeitas "fundamentadas". Afinal, somente eu estava em casa quando todos, ou quase todos não estavam. Logo, o culpado teria que ser eu mesmo.

Algumas surras e puxões de orelhas e eu jurando inocência. Algum tempo depois uma chuva ocasionou uma nova “pingueira” dentro de casa. Meu pai sobe até o sótão para corrigir a telha defeituosa, depara-se com o corvo Roque que, em atitude de ataque, tenta a qualquer custo, defender seu território supremo.

Só que esse território estava repleto das pilhagens que aquele….aquele…aquele moleque havia surrupiado e bem debaixo de nossos narizes e meu pai. Ao descobrir as "jóias da coroa", chamou minha mãe para informá-la da descoberta.

Ficamos mudos e surpresos. Somente o safado do Roque crocitava feito um louco e tentava a todo custo e a vigorosas bicadas, defender sua pilhagem.

Todos os olhares, surpresos, admirados, incrédulos, desviaram-se daquele "neguinho cretino" e voltaram-se para mim e, pude notar um certo ar de arrependimento em todos pelas acusações, isolamentos e pelos castigos que recebi, inocentemente. Enfim, o culpado foi descoberto!

Fui paparicado (não muito). Ganhei o abraço de minha mãe (o melhor reconhecimento) e uma enorme fatia de pudim de "Leite Moça" como consolação, além de ser alvo de rasgados elogios com as "fofoqueiras" da vizinhança.

Quanto ao Roque, foi desalojado de sua "corvo-caverna" e devidamente enjaulado em uma ampla gaiola e posteriormente transferido para um viveiro, desta feita no quintal.

Não foi demorada a sua readaptação ao novo lugar e lá ele ainda viveu por alguns anos até falecer de velhice e com direito a um digno sepultamento.
Não morreu "virgem". Uma franguinha garnisé muito prendada, interessou-se por ele e lhe fez companhia por algum tempo.

Do resultado das pilhagens do Roque, além das jóias e bijuterias, moedas e badulaques havia também tampinhas de garrafas, papel laminado de cigarros, bolinhas de gude, alguns botões de roupas, enfim, tudo que resplandecesse.
Tempos depois, ficamos sabendo que os corvos têm atração por tudo que brilha e se der para carregar, babau.

Roque não deixou descendente. Senão… já viu, né!

E-mail do autor: [email protected]