Candinho do Brooklin

Numa manhã fria de inverno, tempos atrás, recebi uma triste notícia por meio de meu irmão: um amigo de infância se fora.<br> <br>Pensativo, coloquei as mãos na cabeça, com os dedos inserindo-se nos cabelos que já estão começando a branquejar e recordei-me dos tempos em que éramos meninos, na capital Paulista, mais precisamente no Brooklin, Parada Petrópolis, onde morávamos.<br> <br>Ele era o mais velho e considerado o mais experiente e "malandro" da turma. Seus pais foram, talvez, os primeiros a ter uma televisão ainda nos incipientes anos da era televisiva.<br> <br>Vez ou outra a garotada, era convidada para assistir os desenhos que a tevê exibia. Ficávamos todos sentados no chão da sala e "educados" conforme recomendações de nossas mães.<br><br>Seu nome: José Cândido Andreatta, ou mais popularmente: Candinho.<br> <br>O tempo passou, nos tornamos jovens adultos e a diferença de idade deixou de ser empecilho…<br> <br>Candinho fazia de tudo, inclusive atuou na televisão, junto com meu irmão Ailton. Ambos, ora como atores, extras, assistentes de produção e por aí afora.<br> <br>Ele era conhecido como um famoso "mão de vaca" e consta que não abria a mão nem para cumprimentar…<br> <br>Saia sempre com o meu irmão para a gandaia e naqueles tempos não existia o clima de insegurança que hoje existe.<br><br>Certa ocasião, meu irmão e ele pegaram um táxi e foram dançar no "Cassino Vila Sofia" (Santo Amaro).<br><br>Ao chegarem o Candinho veio com aquela:<br> <br>- Acerta o táxi aí, enquanto eu vou "quebrar" a sua entrada; ele era conhecido, pois cantava lá e não pagava; era amigo do dono.<br><br>Após mais de meia hora de espera com o táxi dispensado, o mano, segundo suas próprias palavras, perguntou para o porteiro:<br> <br>- O Candinho deixou algum recado para você? Resposta:<br><br>- Não! <br><br>Aí ele comprou o ingresso e ao entrar lá estava ele no palco cantando, lembro até da música, recorda meu irmão:<br><br>A estrela Dalva<br>No céu desponta<br>E a Lua anda tonta<br>De tamanho esplendor<br>E as pastorinhas…<br><br> <br>Moral da história: Só de bronca, ele pegou uma mesa e chamou duas garotas e "cerveja a vontade". Quando ele, Candinho, se aproximou com toda simpatia e puxou uma cadeira e disse: E aí tudo certo?<br> <br>- Tudo certo o quê? Seu f.d.p., aqui você não toma nem água, cai fora! As meninas não entenderam nada, no final o mano foi embora de táxi com as gatas e o Candinho provavelmente de buzão… <br> <br>Dias depois lá estava ele novamente na porta de casa para curtirem a noite como se nada tivesse acontecido…<br><br>Outras de suas passagens:<br><br>Candinho tinha uma Lambreta, coqueluche da época, que toda molecada admirava e ele, como sempre "malandro" mandava a turma lavar e deixar a mesma brilhante e como prêmio, levava, na garupa, os "voluntários", para dar uma volta no quarteirão e assim todos ficavam felizes e satisfeitos.<br> <br>Noutra feita, certa ocasião flagrou o Paulo "Peito Duro", "pegando" abacate no quintal dele e não teve dúvidas, deu-lhe um tiro de espingardinha de chumbo, que o atingiu na barriga, mas apenas ficou uma pequena marca. Nunca mais ninguém ousou "pegar" abacate…<br> <br>E esta foi, talvez a mais hilariante de todas: Candinho era instrutor de uma auto-escola e estava ensinando um aluno a dirigir, quando o mesmo, por imperícia e falha do instrutor, atropelou um transeunte e ele foi responsabilizado.<br> <br>Resumo: Ficou quase um ano pagando os medicamentos e outras pequenas despesas para a vítima e dando uma "graninha" para o mesmo não processá-lo.<br> <br>Para se livrar da situação, teve a ousadia de conseguir um atestado de óbito falso e mandou a auto-escola, para que fosse mostrado ao camarada; o mesmo "engoliu" e o Candinho se livrou da situação…<br> <br>Candinho faleceu, talvez em conseqüência de uma atitude impensada que ele mesmo teve, quando na Praia Grande morava. Ele havia sido internado, não sei por que motivo em um hospital e estava sedado. Ao acordar viu-se cheio de ataduras e agulhas nos braços e tal. Por motivos desconhecidos, num ímpeto, tirou todos os "apetrechos" e se vestiu sem que ninguém o visse e saiu em desabalada do hospital. Tempos depois, foi obrigado à retornar ao mesmo, donde veio a falecer…<br> <br>Candinho havia se casado pela segunda vez e deixou duas filhas, das quais nunca mais tivemos notícias.<br> <br>Foi um grande amigo, com ele aprendemos muitas coisas da vida…<br><br>Sem dúvida, um personagem marcante de nossa infância e mocidade que muitas saudades deixou…