Frei Vicente da igreja Santa Rosa de Lima – Perdizes

Iniciei minha vida estudantil no Externato Santa Rosa de Lima, anexo à igreja da mesma santa que ficava na Rua Apiacás. Abaixo da igreja havia um salão com pequeno palco para as apresentações solenes, lá também funcionava o cinema, nas tardes de domingo, ou seja, as matinês. Em suas cadeiras duras em madeira maciça e escuras, tendo o assento móvel e que, devido ao meu pequeno porte, algumas vezes fiquei entalada entre o encosto e tal assento. Lembro que alguns filmes me amedrontavam fazendo de olhos fechados e mãos sobre eles perder boa parte das cenas.<br><br>Lá também fiz o meu jardim de infância, durante a semana. O pré já fiz em classe própria no prédio do colégio. Aos domingos pela manhã tínhamos que ir à missa e de preferência em jejum, pois íamos nos comungar e não sei por que não podíamos estar de "pança" cheia. Lembro que certa vez uma amiga se estatelou ao meu lado, talvez por ter levado muito a sério o jejum. Branca como cera foi levada para o pátio do colégio, que ficava ao lado da igreja. Seu nome era Ma. de Fátima, portuguesinha de brincos de rubi na orelha.<br><br>Outro fato importante foi quando da minha primeira comunhão, tivemos que aceitar vestimenta única imposta pelo Frei Vicente, homem severo na sua docilidade de sacerdote. Sonhava com vestidos rodados e longos, véu de tule, luvas de cetim a segurar singelo terço e pequena bíblia com capa em madrepérolas. Tentava me encantar enquanto minha mãe, na economia necessária da época, adaptava tão simples túnica. Procurei remover meus anseios de princesa da veste antiga para a humildade santificada da túnica branca com uma prega macho que descia do decote e se tornava livre após a cintura, para melhorar o visual um cinto em branco acetinado que para mim lembrava puxador de cortina, fazia par com o bordado, tão belo, executado por minha mãe de trigos dourados. De foto do tal modelo ficou apenas da minha irmã. Ao vê-la hoje tento imaginar como eu teria ficado, já que a sensação de elevação espiritual reinava no dia.<br><br>Minha professora do 1o ano primário, Dna Vanda, mulher alta, magra, de óculos grandes, impunha respeito entre a criançada. Certa vez, ao passarmos ao lado da imagem de Sta. Rosa, repreendeu a todos que ao final do sinal da cruz beijávamos a mão, para nós sinal de respeito, para ela pura falta de higiene, o que sei que até hoje, ao ver alguém levar a mão a boca após sinal da cruz, ouço Pfa. Vanda a repreender.<br><br>Nessa escola e igreja aprendi os meus primeiros valores sociais. Recentemente passei pelo bairro das Perdizes, o externato não existe mais e a igreja tomou duas dimensões na grandiosidade de minhas lembranças com a singeleza dos dias atuais.<br><br>Sentada no último banco do templo lembrei do prazer em acender pequenas velas a serem depositadas em cálices vermelhos. A pia batismal situada em pequena sala, toda envidraçada logo a entrada, onde eu e minha melhor amiga Rosane Ma. Vasquez imaginávamos ser nosso castelo, e no púlpito ora vazio vi Frei Vicente a celebrar a liturgia dominical, entregar solenemente a hóstia e nós crianças a tentar não mastigar, pois a mesma representava o corpo de cristo, tarefa difícil, pois a rodela farinhenta insistia em colar no céu da boca. E os vitrais com sua luz azulada me fizeram lembrar das tardes em que, em burburinho, aguardávamos para confessar, creio eu, traquinagens isentadas com aves marias e pai nosso. Cabeça posta sobre as mãos, orações decoradas e repetidas e sensação de alívio alcançado até a próxima vez. Cursei até a 3a. série do primário quando meus pais se mudaram para outro bairro e lá fui eu para outro colégio católico, mas essa será outra história.<br><br>Ah! Fiz questão de batizar minha primeira filha Fabiana, nas mãos de Frei Vicente, já velho e trêmulo a nos abençoar anos depois. Muitos anos ainda se passaram e quis a vida uma bela peça me pregar. Certa manhã uma cliente me liga a pedir que fosse vê-la em sua casa. Apelo atendido e endereço em mãos, qual não foi a minha surpresa quando diante do tal edifício, este ficava ao lado da igreja em questão, e da sua varanda podia ver sua forma arredondada com suas altas janelas azuladas.<br><br>e-mail da autora: [email protected]