Uma Singela homenagem aos cem anos da imigração japonesa no Brasil
Desce a noite tímida e lavada, noite que caiu do céu, subiu pelos telhados soturnos, rasteiros, velhos, pretíssimos da Rua Conde de Sarzedas e veio devagar, num chuvisco fosco de névoa espumante esgarçada, toda batida por um vento úmido que subiu dos mangues da várzea do Carmo, triste, vagante, e foi deixando por onde passou um rastro da água de chuva de pingos miúdos, pálidos, pensativos, sob o reflexo da luz amarela no negro asfalto molhado.
Essa luz que vem descendo, vem descendo, sob o céu da cidade na forma de um lusco fusco triste, que escorre ladeira abaixo na Rua Conde de Sarzedas. Noite do Japão no bairro da Liberdade em São Paulo. Japão absoluto, pequeno, pequenino, pequenininho, concreto, discreto, honesto, perfeito, como aquelas árvores anãs de pinheiros seculares, tortos e fortes que são plantados nos jardins das casas milionárias de São Paulo.
Este Japão que começa na Rua Conde de Sarzedas e termina logo ali no Largo da Liberdade, junto a Igreja da Irmandade Santa Cruz dos Enforcados.
Começa e acaba de repente este Japão de São Paulo. Termina junto às paredes cinza, sujas, enegrecidas, esfumadas pela queima das velas nos castiçais no átrio da igreja das Almas. Lá, que ar de Semana Santa, que quietude de defunto, que recolhimento de família enlutada, que roxa lembrança do finado José das Chagas, o Chaguinha, que morreu historicamente ali, enforcado. Telhados da Boa Morte. Tenho a vaga impressão que todos os homens se chamam Chagas e são finados, e vivem ali, pasmados, sobre aqueles telhados velhos pretos e tristíssimos da igreja da Boa Morte.
Japão absoluto, pequeno, pequenino, pequenininho, concreto, discreto, honesto, esse Japão brasileiro, onde nasceu à sabedoria criada por Bashô e transcrita nos três versos breves e o pensamento breve e que vive nas dezessete sílabas breves de um Haicai. Uma corrida rente aos paredões antigos da Rua da Glória. Uma esquina dobrada à esquerda. Japão.
Agora é hora de fechar as portas dos armazéns da Rua Galvão Bueno e aproveitar os resquícios da chuva miúda, persistente que cai sob a cidade e esfregar e varrer as portas dos estabelecimentos comerciais. É hora também, de acender as lâmpadas elétricas sob o mosaico desenho do anúncio dos letreiros luminosos das casas comerciais. A luz da lâmpada elétrica amarela, sobre um globo fosco descorado, triste, tristíssimo atrás do vidro sujo de uma farmácia, entre as bandeiras do Brasil e do Japão, ambas dependuradas num fio de seda sobre a escrivaninha atulhada de papeis do guarda livros.
Uma esquina. Rua Galvão Bueno. Na rua uma venda com duas portas pintadas de azul e um balcão à direita com uma máquina fumegante do café expresso bufando.
Foi ali, naquela venda vulgar, igual a todas as vendas vulgares de São Paulo que apareceu a primeira japoniere; uma lista de preços de gêneros alimentícios, e o preparo da sopa de massa de soja, o missoshiru; do queijo de soja: o tofu; e o shoyu, um molho especial de soja, que faz com que os japoneses sintam nostalgia da comida de sua terra natal. Também o manju, um doce japonês e do macarrão conhecido por Udon; tudo isso transcrito em giz branco, no quadro negro, dependurado na porta de entrada escrito em japonês. Duas moças orientais vestidas de verde azul; uma é bem bonita, com sua cor de fruta, seus dentes miúdos numa boca bem feita, e uma travessa nos cabelos curtos. Seu nome: Mikiko. Não entende nada de português; não sabe o que é vinho do porto, e dá risadinhas rápidas e nervosas.
Mais adiante, à Rua Tabatinguera num declive abrupto. Todas as casas da rua parecem sem fisionomia, como a cara da multidão. Pequena, minúscula, pequenina, como as aves finas e detalhadas que Kórin pintou nos papéis de seda, ou como as geishas de ouro sentadas sobre os pés, tocando o koto e o shamisen, na tampa das caixas de laca negra; ali tudo é pequeno. Pequeno como aquele netzhês de marfim velho ou cristal de rocha. Veja ali, aquela criança que passa na calçada, corpo cor de canela, cabelos rijos, esticados, envernizados de raça e de chuva; com uma franja geométrica, pretíssima; dois olhos sem cílios, doces, oleosos, de amêndoas mal pousados à flor da pele, parecida como uma boneca. E ela não é muito menor do que aquela mulherzinha ligeira, que passou, num silêncio medroso, com seus pés exíguos ficando-se firme no cimento da calçada. E nem maior do que ela é o homenzinho que tem uma capa de chuva e nos pés uma galocha, o chapéu desabado e as mãos delicadas, e que desce automático, direito, apressado a sua rua cotidiana.
Outra criança. Muitas outras crianças. Outra mulherzinha. Muitas mulherzinhas; mais outros homenzinhos. Todos iguais, sempre! Sempre a mesma franjinha do modelo Foujita, sempre a mesma figurinha ligeira e miúda. Tabuletas, kakemonos enormes de lata azul com todos os caprichosos silabários hiragana, negro e vertical.
Todos os caracteres são parecidos com os toriis que fazem pórtico dos templos xintoístas, todos em madeira com teto piramidal do templo budista da comunidade Soto Zen Shu de tradição japonesa que se entra com pés descalços; dos leques e das suzurantô, os biombos, os cartões postais, passaram a decorar as ruas do pequeno Japão brasileiro. Em baixo, as obrigatórias traduções para o português. Para que traduzir? Para que explicar? Em letras bem pequenas, cheias de kk, yy, pensão familiar. Dentista, farmácia, objetos japoneses. Principalmente, as pensões familiares. Um restaurante. Na parede pintura alemã esponjada, azul claro; tabiques de pinho esmaltado de branco; tudo limpo, limpíssimo; o cardápio em papelões grandes, espalhados pelas paredes, como se fossem quadros: – Que é que tem aí? E a japonesinha séria, distante, honesta, toda envolta na cortina de cretone alegre, de desenhos quase tão japoneses quanto ela, informa seca: – Não tem comida pra branco! E vai-se embora depressa.
Artigos japoneses interior; revistas diretamente de Kobe, trazendo no conteúdo a reportagem da tragédia do terremoto sinistro que abalou o Japão. Almanaques, sabão, xícaras, conservas em latas, mariscos em bocais de vidro largo, carpas e polvos defumados, flores artificiais de pessegueiro, chá preto, chá verde… Aqui tem de tudo!
Outra japonesinha simpática: – Isso é pra tomar Saquê, pinga japonesa de arroz fermentado, informa ela. Custa cinco cruzeiros apenas. E vende depressa, uma espécie de tigelinha bonita de porcelana pintada de verde, preto e ouro, "Made In Japan".
Atrás de uma prateleira, uma mesa baixa. Em torno três homens moços, estão colando fita adesiva transparente sob uma quantidade enorme de notas de um cruzeiro estraçalhadas; dinheiro circuladíssimo na região. Um puzzle paciente, desesperante. Distração para noite como aquela de chuva miúda e persistente. Freguês só tem dinheiro assim… E os três rostos lisos, fixos, inteligentes, abrem ao mesmo tempo, três sorrisos idênticos, simpáticos, rápidos. Parecem três máscaras risonhas de Demé-Jioman.
A noite vai se estendendo lentamente nos pingos da chuva miúda, persistente. Quatro bicos de gás distanciados desenham à Rua Conde de Sarzedas; uma luz esverdeada que se suja no calçamento molhado. Descer a rua trôpega. Na esquina há um barbeiro. Há uma boneca de celulóide, cabeluda, perfeitamente europeia, sentada na estante das loções, olhando para o barbeiro de sweater. Três luzes elétricas abrem seu olho amarelo e parado atrás dos vidros encardidos de uma oficina de conserto de rádio e televisão.
Noturno no bairro japonês de São Paulo. Há alguns globos elétricos, brancos, com escrita hiragana negra, pondo luas nas pequenas fachadas dos estabelecimentos comerciais. Agora, na rua há um homem. Deve ter vindo do trabalho, quieto, das casas Mikado ou Tokio, que vendem móveis brancos de fabricação própria e que andam esmaltando a cidade toda. Não traz na cabeça a Kasa campônio, nem nos ombros o Mino, amplo sinônimo dos arrozais rasos. Não importa: é o homem do mundo todo. A capa de borracha comprida, o chapéus desabado, as mãos delicadas, desceu a rua… Passou, sumiu na noite escura.
No meio da rua o calçamento esta levantado para os canos de esgoto recém colocados. Mais à frente está os restaurantes típicos da Rua Tomás Gonzaga conhecida como Aji no Suzuran Dôri, a rua das iguarias do sabor japonês. Há coisas estreitas e sinuosas que podem dar a ideia de perigo.
A noite agora já caiu toda sobre o bairro japonês da Liberdade. Agora é uma espécie de medo que começa a cair nos pingos da chuva. Mas Shoki, o caçador de demônios, ventrudo e poderoso, espanta as criaturas que dão medo na gente. Este é o Japão, amado e festejado nas comemorações das festas culturais como o Odori, uma dança folclórica japonesa; do Moti Tsuki para celebrar o ano novo; o Japão brasileiro da Hana Matsuri no mês de abril, em homenagem a Buda, e o Tanabata Matsuri do mês de julho, em que se anotam os desejos das pessoas em papéis coloridos preso nos galhos de bambu.
É aqui neste largo da Liberdade, na quase noite confusa de chuva. Aqui, onde começa e acaba o Japão de São Paulo. Começa e acaba de repente. Porque é minúsculo, pequeno, pequenino, pequenininho este Japão: e assim são com certeza todos os Japões possíveis. Concentração absoluta de raça e gente.
Nesta quietude brusca da noite saio de repente, debaixo de um céu de calvário; olhei um pouco para a torre da igreja dos enforcados, espetada na bruma escura do céu e pensei nas noites de nevoeiro em que as almas rondam em procissão pelos telhados da Boa Morte; rolos de fuligem emergem do escapamento dos carros e espargem sob o bairro um cheiro forte de gasolina queimada. O velho palacete dos Condes de Sarzedas espia o burgo, pelas suas arcadas Elisabetanas de tijolos vermelhos e vitrais coloridos. Subir sempre. Ver passar encolhidas no fundo de uma bacia na várzea do Carmo aquele punhado de casas todas iguais de porões também iguais onde os aluguéis são sempre baratos e essa nostalgia essa pré-saudades, esse nunca mais, de um fim de tarde e começo de noite no bairro japonês da Liberdade.
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