Um consorte com sorte

O ano, se não me engano, foi 1963. Eu, com treze anos, já morava na Rua Albion, na Lapa. Nessa época, se antes fazíamos o trajeto inverso para visitar minha avó, então íamos da Lapa para a Vila Mariana (Mirandópolis) para visitar meus tios Ofélia e Emílio e meus primos Rosa Maria e Marino, que lá permaneceram após nossa mudança.

Devia ser hora de jantar, ou então fazíamos um lanche, pois estávamos sentados à mesa. De repente ouvimos um forte barulho de motor de avião passando sobre a casa. O telhado tremeu. Devo esclarecer, nesse momento, que a residência ficava na rota do Aeroporto de Congonhas.

Meu tio, agitado, logo falou: "Algum avião está com problemas". Foi o tempo do tio Emílio se manifestar e, em seguida, um tremendo estrondo foi ouvido pelos arredores.

A televisão estava ligada e, em edição extraordinária, o repórter anunciou: "um avião Convair, que fazia a ponte aérea Rio/São Paulo, acaba de acidentar-se, atingindo uma área residencial nas proximidades da Avenida Itacira, no bairro de Mirandópolis".

Foi uma comoção geral. Todos nos dirigimos ao aparelho de TV para obter maiores informações. Saímos para o jardim, e de longe, víamos um clarão do que parecia ser um incêndio. Uma coluna de fumaça subia aos céus.

Imediatamente meus pais deram ordem para que eu entrasse na casa.

Fiquei com a notícia rebimbando em meu cérebro.

Naquela noite pernoitei na casa de meus tios… Assim que amanheceu, escapando sorrateiramente, me dirigi ao local do acidente. Foi uma cena horrível. Entre duas casas, uma delas semi-destruída pela asa do avião, encontravam-se os destroços da aeronave, dentre eles estavam malas abertas com roupas de bebês, brinquedos de crianças, coisas que pareciam ser pedaços de dentaduras e outros pertences que deviam ter pertencido às vítimas. Tudo chamuscado pelo incêndio.

Curiosos cercavam o local. O pessoal do resgate e do corpo de bombeiros, que fazia o rescaldo, tentava afastar a população. Os comentários eram de que o comandante, num trágico esforço de salvar o aparelho, tentou conduzi-lo de volta ao aeroporto. Não conseguindo, tentou aterrissar num terreno baldio entre duas casas. Mas infelizmente o inevitável aconteceu. Vários mortos e alguns sobreviventes. Dentre eles, comenta-se, estava o recém falecido ator Renato Consorte.

Os anos passaram, mas até hoje tenho perpetuadas em minha retina as impressionantes cenas que vislumbrei com a ingenuidade de meus olhos infantis. Penso até hoje naquelas roupinhas de bebês, os mesmos que tiveram suas vidas tragicamente roubadas no acidente.

Hoje, mal comparando, penso nas vítimas do terrível acidente da Gol e outros acidentes aéreos que ceifaram vidas de forma tão terrível. Só posso culpar o progresso, sinal dos tempos, que se por um lado nos traz grandes vantagens, por outro podem causar inevitáveis prejuízos.

Nem tudo são rosas perfumadas num vaso colorido. O progresso também traz seus espinhos. E temos que aceitá-los e aprender a lidar com eles. Coisas da vida real!

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